Duas visões sobre as drogas

De maneiras bem distintas, dois cineastas centraram suas câmeras em viciados: Gus Van Sant e Neil Armfield. O primeiro tem mais nome internacional e carrega na bagagem filmes como Elefante, Paranoid Park. O segundo, um australiano, tem tradição no teatro e apenas dois longas-metragens no currículo.

Os filmes são Last Days e Candy. O primeiro se inspira nos últimos dias de Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana, e constrói um universo marcado por derrocada. Já o diretor australiano conta a história de um casal, Daniel e Candeance, do auge da relação ao fim ético e moral. Boa parte da narrativa, porém, se concentra no processo de destruição.

A diferença entre as obras está na ousadia e na ambientação das duas situações. Gus Van Sant opta por mergulhar insanamente no mundo de Blake, o roqueiro viciado. Tudo é soturno, obscuro. A sensação é que na lente da câmara de Gus havia uma seringa de heroína à qual o espectador injeta antes de ver o filme.

As imagens não dão concessão. O mundo de Blake está vazio. Ele não consegue sequer articular uma palavra. Só há grunhidos, gemidos. É como se o diretor penetrasse no mundo de Blake e olhasse para ele de dentro, vivendo a situação.

A opção de Armfield difere sensivelmente. Em “Candy”, o espectador é racional. Há uma clara divisão entre quem está se sentando na poltrona e o que acontece na tela. Tudo é visto de fora. Todas as “viagens” do casal drogado são vistas por um espectador sóbrio. A indicação de que eles estão sob efeito da heroína são, obviamente, as imagens, mas, principalmente, a ópera executada toda vez que injetam.

Enquanto Gus vai e volta, mostrando a mesma situação sob a perspectiva de personagens diferentes – assim como havia feito em Elefante –, Armfield mantêm sua câmera na mesma posição de observador social externo ao que acontece entre Candy e Dan.

Em tempo I: quem interpreta o junkie Daniel em Candy é Heath Leadger, morto em 22 janeiro de 2008 por overdose acidental causada por “efeito combinado de oxycodona, hidrocodona, diazepam, temazepam, alprazolam e doxylamina”, segundo a porta-voz de medicina forense de Nova York, Ellen Borakove.

Em tempo II: Blake, nome do roqueiro viciado no filme de Gus Van Sant, também é o nome do marido de Amy Winehouse, a junkie do momento. Por ele, Amy já aprontou várias.

Em tempo III: Last Days não passou nos cinemas brasileiros. Foi lançado em Cannes em 2005, passou no Festival do Rio e foi lançado diretamente em DVD no mercado nacional.

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