Sobre todas as coisas (odiosas)

— de Tiradentes, Minas Gerais

Sobe o realizador no palco do Cine Tenda. “Meu filme é uma animação em stop-motion, vocês sabem como é difícil fazer isso no Brasil”. Depois vem a função educativa de seu filme. “É baseado num cordel, o cinema é diferente: você precisa ser letrado para acompanhar um cordel, o cinema é também para os iletrados”.

Promete, hein? Não cumpre, pelo contrário: A Saga de um Corno é um curta-metragem odioso. Numa mostra de cinema como a de Tiradentes, janela para um cinema brasileiro (ainda) fora das salas, a presença dessa animação de Wllyssys Wofgang é uma afronta.

Afronta ao estado das coisas que o filme sustenta. Vemos numa animação precária a vida de um marido constantemente traído pela sua companheira da vez. Primeiro, a mulher oficial. Depois, uma prostituta. Em seguida, uma “morena”; Logo após, um “viado”; Pra fechar, um jumento.

Hmmm, então esta é a escala da dignidade humana? O estágio anterior ao animal irracional que só serve para ser domesticado à força é o homossexual? E o gay é uma espécie de step woman, brinquedinho das horas vagas para suprir a falta de mulher?

Não adianta dizer que apontar a lógica discriminadora do filme é coisa de quem defende o reino do politicamente correto. Essa oposição “eles” versus “nós” não cola e é maniqueista. O filme escolhe os que merecem ser respeitados e os que merecem apanhar. Defende sua lógica suavemente e se protege sob uma cortina da cultura popular de que no Nordeste é assim.

A mulher, a prostituta, a “morena” (que o filme sequer tem coragem de chamar de negra, o que ela é de fato) e o “viado” apanham. O tal do Zé Mulato do filme sai ileso, apenas se lamentando da infidelidade das coisas (não seres, coisas) que passam por sua casa e vida.

Um contrassenso a presença desse curta na seleção Panorama da Mostra de Tiradentes, cuja curadoria é de Cássio Starling Carlos e Pedro Maciel. Depois de tantos curtas bons, outros com coisas boas e mais outros tantos que refrescam o olhar, fiquei com vontade de incorporar o espírito Um Dia de Fúria e atirar nesse filme.

Ah, e se você não concorda com nada dessa análise acima, fique só com o mínimo: é ruim mesmo.

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