Amor e Revolução, a novela

Este blog falando de novela? Sim, porque o tema pede. Contrario o senso comum e acho que ainda falamos muito pouco da Ditadura Militar (1964-85). Pior: estamos longe de abrir integralmente os arquivos das forças armadas e, pior ainda, a quilômetros de distância de punir torturadores e apoiadores das violações dos direitos humanos.

Por isso, este blog decidiu falar de Amor e Revolução, a novela que estreou na noite de terça-feira no SBT. Numa entrevista, o autor Tiago Santiago comentou decisões, especialmente a de não abarcar integralmente o principal período de repressão (governo Médici, 1969-74) – o enredo cobre de 64 a 71 e, segundo o autor, há possibilidades de estender até a guerrilha de Caparaó.

Minha esperança – claramente naïf, eu sei – é que o tema Ditadura Militar deixe de ser tão distante da população, encarado apenas como assunto de livros chatos. Quem sabe o telespectador que acompanhar Amor e Revolução não descobrirá, no meio do caminho, um Cidadão Boilesen?

Em se tratando do discurso nas entrelinhas, o primeiro capítulo não é um desastre. Não se esconde que os militares torturaram (o episódio de ontem terminou com o início de uma sessão de tortura e um depoimento real – nos moldes das novelas de Gloria Perez – de uma militante violentada na frente dos filhos). Santiago parece que irá guiar o enredo entre o Bem e o Mal. À priori, os militares que deram o golpe são os vilões (justo) e os estudantes são os mocinhos que defendem a legalidade de um governo eleito democraticamente (justo). Não sei se a banda vai tocar dessa maneira durante os 180 capítulos e se tudo será tão preto no branco.

Também ficou claro que, apesar de os acontecimentos da época da repressão serem o colchão dramático, o enredo vai investir no arquétipo shakespeariano do amor impossível. José Guerra (Cláudio Lins), o militar, e Maria Paixão (Graziella Schmitt), a estudante.

Minha fração esperançosa torce para que o que aconteceu na última Ditadura do Brasil caia na boca do povo e, por algum milagre, avance a média do conhecimento daquele período. Já a fração mais desesperançosa morre de medo que palavras sejam pronunciadas ao vento sem maior esforço em significá-las (“comunismo”, “ditadura”, “democracia”, “estudantes”, “repressão”) – seguindo aquela capacidade espantosa das novelas de tornar tudo vazio.

No primeiro capítulo, a falta de contextualização já deu as caras. O que significaram os três anos do governo democrático de João Goulart? Como a elite reagiu às suas tentativas de reformas, especialmente a agrária? Qual classe econômica que deu suporte financeiro aos militares para darem o golpe? Questões pré-golpe de Estado que ficaram longe deste início de Amor e Revolução.

O telespectador que não sabe que dois mais dois são quatro já se tornou vítima de parte do discurso simplista: os estudantes queriam implementar o comunismo (conceito que cada vez mais tem sido usado de maneira vaga, assim como “mise-en-scène” no cinema) e os militares decidiram impedir – nas entrelinhas, deu para sentir um clima de “eles foram levados a dar um golpe”.

A esperança me diz para enxergar em Amor e Revolução um caminho para popularizar um tema ainda discutido em nichos – a questão da abertura dos arquivos é chave nisso. A falta de esperança me diz que raramente novelas se dispõem a aprofundar algo e repetem falsos lugares-comuns.

Torço para que a esperança vença e, quem sabe, filmes como Cabra-Cega, Quase Dois Irmãos Batismo de Sangue, Que Bom te Ver Viva, Hércules 56, Pra Frente Brasil O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias sejam resgatados, revistos e discutidos.

Naïf, mas qual o problema? Qualquer crítico de cinema disposto, nos dias de hoje, a ir além dos filmes do circuito comercial ou não resumir seus textos a indicadores de consumo já é um sonhador.

Em tempo: para os leitores que se interessam pelo tema, neste link tem uma entrevista que fiz com o Chaim Litewski, diretor de Cidadão Boilesen, quando o filme estreou nos cinemas — hoje está disponível para locação em DVD.

Em tempo 2: Rodrigo Siqueira, diretor de Terra Deu, Terra Come, que votei como Melhor Documentário na eleição do Festival Sesc Melhores Filmes, me disse que está iniciando a preparação de um filme sobre a manipulação do processo de Anistia, outro tema espinhoso. Mas o projeto ainda está em fase embrionária.

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