Manoel de Oliveira e a rapariga loura

Que Portugal é essa que tem a tecnologia (ilustrada por um moderníssimo monitor de computador) e a tradição (homem tem de pedir a mão da amada à sua mãe) lado a lado? Questão levantada indiretamente por Singularidades de uma Rapariga Loura, do centenário Manoel de Oliveira.

Macário é um contador que no escritório praticamente não tem papeis. Tudo é feito no ambiente virtual, no computador, com barulhinhos de teclado. Estamos diante de uma Portugal moderna, certo? Nem tanto: o rapaz vive uma numa prisão invisível na casa de seu tio e parece não ter espaço para exercer seu desejo, sair das amarras.

Os carros que vemos nas ruas de Lisboa são modernos, mas os costumes de seus donos não. Como vemos na cena do recital: parece que presenciamos uma reunião de elite do Século 19! Uma mulher (Ana Miranda) toca Debussy numa harpa (!)

Na atmosfera, Singularidades de uma Rapariga Loura (e só lá no final vamos saber porque a tal moça tem certas “singularidades”) vive entre o presente e o passado. Em O Estranho Caso de Angélica a genialidade de Oliveira vinha do desvario apaixonado do fotógrafo, o que há de mais encantador vem da construção da paixão de Macário (Ricardo Trêpa) e Luísa Villaça (Catarina Wallenstein, que me lembrou muito Lea Seydoux em A Bela Junie).

Como esse português filma bem o jogo da conquista! Ele olha atravessado, ela dá duas voltas no leque. Ele pega o papel e se aproxima da janela, tímido ao dirigir um olhar à musa; ela olha para baixo, mexe novamente o leque chinês.

Cada plano tem a duração certa, milimetricamente calculada. Oliveira faz pinturas que se movem. É verdade que Singularidades de uma Rapariga Loura tem uma estrutura mais simples, baseada no flashback que faz de Macário um narrador de seu próprio amor e desventura. Mas, mesmo que não se saia estatelado da sala de cinema

Em tempo, um elogio: Leon Cakoff, da Mostra Internacional de Cinema, é um dos responsáveis por possibilitar ao espectador brasileiro o acesso, na sala de cinema, à obra de Manoel de Oliveira. Ano passado, O Estranho Caso de Angélica abriu a Mostra e, se não tivesse adoecido, o cineasta centenário teria vindo ao Brasil.

Singularidades de Uma Rapariga Loura está em cartaz distribuído pelo selo da Mostra e numa linda cópia em 35mm!

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