Operação Dragão Negro e o blaxploitation

Carlão Reichenbach é quem costuma dizer que não se pode ter preconceito para filmes. Um cinéfilo tem de estar aberto para ser surpreendido até mesmo por produções que aparentemente seriam um mar de obviedade. Uma delas é Operação Dragão Negro, típico exemplar de blaxploitation.

Lançado em 1975, o filme surfa no sucesso de Operação Dragão, que marca a última aparição de Bruce Lee nos cinemas. Trata-se de um filme de ação B com momentos cinematográficos ora pavorosos, ora interessantes.

Provavelmente, o mais instigante em Black Fist (título original) é o cenário: o lendário bairro de Bronx nos anos 70. O Partido dos Panteras Negras Para Defesa Pessoal estava em declínio e denunciava a distribuição de drogas, especialmente heroína, para conter a organização política dos negros – informação extra-fílmica, mas já presente no imaginário por causa de O Gângster e The Black Power Mixtape. O tráfico torna-se paisagem da cidade. Neste cenário, Leroy Fisk (Richard Lawson), um Zé Ninguém, encontra seu lugar ao sol ao participar de lutas ilegais para um empresário branco e ganhar algum dinheiro.

Muito curioso que, mesmo num filme de ação de pouco orçamento e sem muita criatividade cinematográfica, a segregação racial seja tão latente e tão bem desenvolvida a ponto de Leroy, o anti-herói, confrontar-se a todo momento com um negro capataz que faz a segurança do patrão. Preconceito entre os próprios negros: não faltam diálogos com yo nigga, move your black ass e outras colocações raciais. Trechos que, se pensarmos na literatura, remontam levam diretamente ao período da escravidão, quando os negros da casa grande tinham um tratamento diferente dos da senzala.

No filme, temos interessantes ponderações sobre a organização mafiosa e um lutador que, assim como Madame Satã, só tem o corpo como ferramenta de luta. Não há otimismo: quem vence é o detentor do poder, ou seja, o branco. Até mesmo Leroy, um cara consciente que sabe com quem está se metendo ao aceitar tornar-se lutador de rua, sucumbe à sua inocência, leitura indicada por uma cópia descarada da sequência final de Operação Dragão.

Operação Dragão Negro recorre a uma vigorosa trilha repleta de soul, criando uma ambientação. Entre os bons momentos, lembro de uma sequência que, talvez seja loucura de cinéfilo, me levou diretamente ao método de assassinato em Confissões de um Comissário de Polícia ao Procurador da República, clássico do cinema político italiano de Damiano Damiani – nome que Carlão me apresentou numa conversa. Outra interessante cena de morte é omitida numa elipse muito similar ao que Scorsese faria em Os Infiltrados.

Por outro lado, o filme de Timothy Galfas – que divide a direção de “cenas adicionais” com Richard Kaye, seja lá o que isso significou nesta produção – tem vilões caricatos, roteiro cheio de brechas, interpretações irregulares (Dabney Coleman muito bem, Robert Burr horrível), direção primitiva etc.

Mesmo cheio de erros, defeitos e precariedade, Operação Dragão Negro permite leituras mais sofisticadas, especialmente nas relações sócio-raciais dos Estados Unidos.

Em tempo: no Brasil, o filme não está disponível em DVD. Sem problemas: a versão integral do filme está disponível no YouTube [clique neste link].

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