Dia do Orgulho Hétero: o fascismo nos ameaça

O Urso de Lata é um blog de cinema, mas que não se furta de comentar os absurdos que aparentemente não têm nada a ver com filmes. O absurdo da vez é a aprovação na Câmara de Vereadores da Cidade de São Paulo de um projeto para instituir o Dia do Orgulho Heterossexual, aparente contraponto ao Orgulho Gay.

Vamos colocar uns pingos nos is que parecem ter se perdido no caminho: por que existe o Dia do Orgulho Gay? Por que os homossexuais, assim como outras “minorias”, são historicamente discriminados, não desfrutam de legislação que os coloque no mesmo patamar de cidadania que outros grupos sociais (só para lembrar que a união estável entre duas pessoas do mesmo sexo só foi aprovada há três meses – pelo Judiciário). A criação de um dia para celebrar o Orgulho Gay é apenas uma afirmação política de um grupo cujo grau de exclusão social tem diminuído ao longo dos anos, uma maneira de dizer: estamos aqui e temos de ser respeitados como qualquer outra pessoa.

Qual seria, então, o fundamento do Dia do Orgulho Heterossexual? Qual é a opressão que eles sofrem? Os héteros tiveram seu ingresso no Exército Proibido numa política semelhante ao “Don’t ask, Don’t Tell”? Não! Por conta de sua condição sexual, foram assassinados ou mandados para campos de concentração durante regimes ditatoriais? Não! Tem um romance proibido de ser abordado em uma novela de horário nobre justamente por sua sexualidade?

Ou seja, não há fundamento algum para a criação de um Dia do Orgulho Heterossexual, pois nunca lhe foram roubados direitos por sua sexualidade ou tratados como distorção. Em todas as frentes políticas, culturais, econômicas e sociais, sempre se reforçou a heterossexualidade como o padrão: héteros nunca precisaram incluir-se, ao passo que os homossexuais sim.

Uma lei como essa só representa o desejo dos conservadores que querem retomar o privilégio de oprimir minorias. É uma ilustração da frustração dos fascistas de não poderem mais apontar o dedo para um gay afetado na rua e gritar “viado” sem ter alguma consequência, moral ou legal. É uma frustração com o fim da barbárie e com a construção gradativa de respeito com todos os grupos sociais.

Autor do projeto, Carlos Apolinário (DEM, o ex-PFL, partido intrínseco à ditadura que agora se autodenomina “Democratas”), justifica-se da seguinte maneira: “a criação do Dia do Hétero não simboliza uma luta contra a figura humana dos gays, e sim contra aquilo que considero que são excessos e privilégios”.

Ele deve estar falando do privilégio de ser respeitado, né? Um privilégio pelo qual os héteros nunca tiveram de lutar em assuntos concernentes à sua sexualidade.

Para piorar, Apolinário solta a pérola “meu cabeleireiro é homossexual”. Olha como o vereador é democrata! Ser cabeleireiro, maquiador sidekick em novelas pode. Agora, esse papo de querer constituir uma família normal como as outras, tornar-se político, executivo de grandes empresas ou simplesmente exigir respeito, não.

Enfim, esse projeto é um sofisma, indicação clara do reino da mediocridade.

Voltemos a falar de cinema no próximo post.

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