Cinema Pernambucano: a tapioca

Leio relato de amigos da crítica sobre a passagem de O País do Desejo no Festival de Gramado. Nenhuma opinião empolgada, até o momento, com o terceiro filme de ficção de Paulo Caldas (Baile Perfumado e Deserto Feliz). Uma pena, pois certamente nele são depositadas muitas das esperanças da qualidade cinematográfica da edição deste ano do festival.

Em dois textos diferentes – um do amigo de Cineclick Roberto Guerra, outro do pernambucano e amigo de crítica Luiz Joaquim no Cinema Escrito –, o realizador reclama de uma suposta pré-indisposição contra o cinema produzido em Pernambuco que não lide abertamente com tema social.

Diz ele: “Todos nós cineastas pernambucanos estamos fugindo desse clichê que é o ‘cinema pernambucano’. Você se sente às vezes uma tapioca, e nós não somos tapioca. Parece que nós não podemos tratar de outro assunto que não o social. É como se cineasta pernambucano não pudesse falar de gente rica porque Pernambuco é pobre”.

Talvez Caldas esteja falando, nas entrelinhas, mais sobre uma cobrança para que seu cinema permaneça na mesma freqüência (drama social) do que em relação ao “cinema pernambucano”.

Ouvi o mesmo termo durante o processo de pesquisa para Cinema Pernambucano: Visão Panorâmica de Uma Geração, no qual este que vos escreve imprimiu um olhar en passant sobre cinco realizadores envolvidos com o ressurgimento da produção daquele estado: Claudio Assis, Hilton Lacerda, Lírio Ferreira, Marcelo Gomes e Paulo Caldas. Foi justamente Gomes que usou a tapioca como metáfora para encaixar esses e outros cineastas no mesmo balaio.

Discordo de ambos. A pressão para uma “repetição” ou a cobrança por uma suposta coerência temática pode existir entre os próprios realizadores, mas não enxergo isso na crítica. Desde Baile Perfumado, que interrompeu um hiato de 20 anos de Pernambuco sem um longa-metragem, a produção se diversificou. Os realizadores que hoje estão na casa dos 40 anos assistiram a chegada de outro geração, hoje trintona, fazendo um dos cinemas mais vibrantes do país.

Não vi a crítica cobrando deles uma postura social de cinema. Alguns exemplos: Mens Sana in Corpore Sano é um grande curta que envereda para o gênero filme de zumbi ao fazer uma crítica à estética da perfeição corporal; Pacific vai à classe média ascendente para discutir como esse grupo se enxerga na imagem; Febre do Rato, grande ganhador em Paulínia, apresenta um lugar de resistência que tem na poesia o principal combustível.

Creio que não deixamos de gostar mais de Superbarroco porque ele não lidou com a pobreza de Pernambuco da mesma maneira que Árido Movie. Ou de Recife Frio porque a violência não tem tanta importância como em Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas.

A variedade de abordagens e a potência cinematográfica dos filmes pernambucanos recentes, longas ou curtas, já tiraram há muito a obrigação da referida cinematografia em se restringir a abordagens sociais.

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