A Pele que Habito, um filme de Almodóvar?

A prova cabal de que algo andou muito mal em A Pele que Habito está numa cena envolvendo a grande Marisa Paredes. À beira de um fogaréu ateado para queimar as provas de um crime, a atriz, encarnada da empregada Marília, conta a Vera uma desgraça que ocorrera anos antes naquela casa.

Nesta sequência de delicada execução e emotivo conteúdo, tinha-se uma grande atriz, a diva destrutiva de Tudo Sobre Minha Mãe. A cena começa e a câmera se aproxima vagarosamente fazendo um movimento lateral. A linda labareda ilumina os rostos dessas duas mulheres tão diferentes naquela noite. Quando, enfim, o plano começa a surtir efeito e sua emoção transparece, Almodóvar o interrompe para realizar um flashback completamente desnecessário.

Isso resume o filme: uma série de escolhas desnecessárias que resultam num conjunto equivocado que, apesar de já nos créditos anunciar “Um Filme de Almodóvar”, parece não ser um filme do grande realizador espanhol autor de algumas obras-primas desde os anos 80. Não faltam os códigos que sedimentaram seu estilo como a reviravolta do enredo, tons melodramáticos, personagens obsessivos etc.

Existe um pacto fundamental entre o tipo de adesão pedida por um filme de Almodóvar e o espectador. Dotado de sensibilidade única, ele vai ao mundo e o observa, devolvendo para nós a construção desse olhar. Nessa operação, o ignóbil (a paixão do estuprador Agrado em Fale Com Ela) torna-se lindo; o que merecia ser julgado (o crime e a mãe de Volver) é compreendido; o nobre (o amor de um homem em Carne Trêmula) revela-se podre e escuso; um ato criminoso (o sequestro de Ata-me) é observado numa ótica charmosa.

Por que? Porque o nível de identificação é tremendo, sempre vamos e voltamos, nos aproximamos e tomamos distâncias. Nos colocamos no lugar desses personagens, o que não nos permite adotar uma postura superior e arrogante. Nos enternecemos e solidarizamos. Nos identificamos. Somos eles.

Não dá para acreditar no cirurgião plástico e sua “cobaia” em A Pele que Habito, graças a uma direção excessivamente acadêmica e pomposa, trilha sonora nunca sutil e especialmente pela postura burocrática da direção de Almodóvar e da atuação de Antonio Bandeiras, que aparentam estar mais preocupados em serem profissionais do que artistas.

Infelizmente, Almodóvar quis fazer um filme de tese: a relação do amor e da dor ou de como a tortura leva a um prazer narcísico, passando também por comentários sobre a ética. Em vez do charme de Ata-me, cujo tema tem clara conexão com o novo longa, há as afirmações de A Pele que Habito. Almodóvar, um cineasta que sempre optou por mostrar e nos educou a não julgar, decidiu demonstrar desta vez. Deu errado.

Almodóvar me ensinou a gostar das inversões morais de seus filmes. Acompanhei com encantamento as várias fases de seus cinemas, que divido assim: a anarco-punk (até O Que eu Fiz Para Merecer Isto?, 1984); a cômica-melodramática (até A Flor do Meu Segredo, em 1995); e finalmente o período de amadurecimento como diretor, mais clássico (de Carne Trêmula, 1997, até Volver). Esta é uma tentativa de divisão didática e obviamente filmes não refletem uma postura estanque de um realizador, que só fala disso ou daquilo.

São momentos diferentes de seu cinema, cada um com um charme e sedução diferente, hábeis em cativar não apenas pelo tema, mas pelo estilo. Qual é a sedução de A Pele que Habito? Não há. E isso muito me preocupa.

O que ele ainda quer do cinema ou o que ele pode lhe dar? Qual fase inaugurar-se-á com dois filmes burocráticos como Abraços Partidos (que não é desastroso, apenas médio) e este longa que chegará aos cinemas em 4 de novembro.

A Pele que Habito não é um filme de Almodóvar, mas de Almodóvar querendo fazer um filme de Almodóvar. Um filme-almofadinha.

Antes da estreia voltarei algumas vezes a ele, abordando as questões que estão lá, mas não florescem no conjunto, e a outros momentos mais dignos da carreira de Pedro Almodóvar Caballero. Por ora, é isso: a maior frustração entre as estreias deste ano.

Em tempo: antes de chegar ao circuito comercial, será exibido no Festival do Rio, que terá a ilustre presença de Marisa Paredes, atriz de Almodóvar neste em outros filmes – se não me engano, o primeiro filme da dupla juntos foi Entre Tinielbas, de 1983.

Em tempo2: abaixo o trailer do filme:

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