Ata-me! ou A Pele que Habito – Parte 3

Assim como A Pele que Habito, Ata-me! (1990) é uma história de amor. Mas também como muitos outros filmes de Almodóvar, o amor nem sempre é compartilhado pelas duas partes, ou melhor, passa por outros gestos bem menos nobres. A tortura, a prisão, o jogo de força e poder são alguns deles.

Ata-me! é legitimamente “um filme de Pedro Almodóvar”, uma daquelas histórias que viramos e dizemos: só ele poderia contá-la. Como chamá-lo, senão de inusitado, esse conto de fadas cômico-melodramático que começa com um crime, o sequestro da atriz Marina (Victoria Abril)?

Como os grandes autores no cinema, Almodóvar faz sempre o mesmo filme, com pequenas variações. A essência é a mesma: as ferramentas do cinema de gênero servem a um realizador cioso por dar um tapa na cara da sociedade (com charme, é claro). O tapa, em Ata-me!, é uma moça “respeitável” (a atriz) apaixonar-se por um seqüestrador amoral (Antonio Banderas, quando ainda queria ser ator de verdade, não um burocrata da atuação).

Nesse conto de fadas elegante, está em jogo não só o amor, mas também o cinema. Temos o longa que nos é mostrado e, dentro deste, outro que está sendo rodado, protagonizado por Marina Osorio e dirigido por Máximo Espejo (Francisco Rabal). Um filme de terror comandado por um diretor outrora respeitado, hoje paraplégico e decadente, filmando apenas pela ajuda dos amigos (quase como a Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses).

Todo o conteúdo humanista de Ata-me não está na belíssima e brega sequência final ou nos movimentos de câmera que ganham classe com a música de Ennio Morricone. O esforço humano de sair da perspectiva egoísta e colocar-se no lugar do outro está na cena em que Máximo, na cadeira de rodas, devora sua atriz-fetiche na tela de TV.

Sua mulher o espreita, mas não diz nada. Cala-se e entende. Como julgar um homem que não consegue mais fazer o que deu sentido à sua vida: dar vazão ao desejo e fazer cinema?

Mais do que no amor da atriz pelo sequestrador, Ata-me! representa o caráter humanista do cinema de Almodóvar nessa cena em que Máximo devora a imagem de sua atriz.

Não é coincidência que esse plano vá reverberar num dos planos mais bonitos de A Pele que Habito, na qual Antonio Banderas, cirurgião psicótico e traumatizado, imagina o sexo com sua cobaia, Vera, apenas mirando-a por uma imensa televisão.

Leia mais: A Pele que Habito é a maior frustração de 2011
Leia mais2: Maus Hábitos e o lado traiçoeiro do amor

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