Ninfas Diabólicas: Dario Argento chama John Doo para conversar

Ninfas Diabólicas, exibido na Cinemateca dentro da mostra O Horror no Cinema Brasileiro, é um divertido filme perverso. Mais um filme da Boca do Lixo que merece sair do limbo dos desconsiderados.

John Doo, seu diretor, morreu no dia 2. Pouquíssimas linhas foram dedicadas a ele nos veículos impressos ou na internet. Uma exceção é o dossiê no blog da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, que conta com textos dos críticos Gabriel Carneiro (Revista Zingu) e Laura Cánepa (Medo de Quê? – O Horror no Cinema Brasileiro).

Ninfas Diabólicas (1977) fica entre a compreensão simples do enredo e a sofisticação de filmar. Cegar-se pelo desejo por duas mulheres irresistíveis (Aldine Müller e Patrícia Scalvi) é o pecado de Rodrigo (Sergio Hingst). A palavra “pecado” não está aqui por acaso: é possível até fazer uma leitura bíblica do personagem que viola a o terceiro pecado capital, o da Luxúria, e quando cai em tentação, cai também em perdição.

Há um elemento puramente sexual (desejar duas mulheres lindas), mas há também o alimento ao ego. Como não se sentir o poderoso com duas falsas estudantes pulando no seu carro, te agarrando e se insinuando a todo momento? Não é só pela via do desejo que o filme atua, mas também na ironia ao chamado “bom cidadão” que leva os filhos à escola de manhã e volta para a esposa à noite.

Os comentários irônicos vêm especialmente pela trilha de Rogério Duprat, que ora nos entrega um clima de calmaria (há temas que parecem tirados de Chapeuzinho Vermelho), ora nos coloca numa atmosfera diabólica e maquiavélica.

A câmera libertária de Ozualdo Candeias também dá seus pitacos: esconde e revela, aproxima e distancia, prenuncia ao espectador com a brusca virada de ponta cabeça na estrada que aquelas belezuras devorando o homem de família

Aos poucos, com um diálogo aqui, uma nota da trilha acolá, um movimento de câmera atípico, vamos percebendo que uma simples tarde de sexo e aventura na praia se transformará num jogo de de perversidade – e é pelo seu sexo que as duas mulheres dominam Rodrigo.

Nesses termos, abre-se um diálogo de Ninfas Diabólicas com dois filmes do Deus do Horror, Dário Argento. Na verdade, Doo abordou duas décadas antes o que Argento investiria em Pelts (2005) e Jenifer (2006), que integram a série de TV Masters of Horrors.

A diferença é que nos filmes mais recentes o diretor italiano não dá mais a mínima para os limites da crueldade – Argento diz que não está se rendendo ao mercado. Jenifer é mais sério, Ninfas Diabólicas mais irônico. Nem se fala então de Pelts, em que um personagem amaldiçoado por uma pele de um animal é capaz de fazer tudo para conseguir transar com a mulher que deseja – mas a magia o leva a entrar numa espiral de loucura que só vendo para crer.

Fim do parênteses, volto ao filme de John Doo, chinês nascido Chien Lun Tu e que se mudou para o Brasil ainda criança. Existe nele o “fator peitinho”, convenção obrigatória para o cinema da Boca naquele momento que garantia espectadores num país ainda sob censura. Mas ao lado disso há uma sofisticação de cinema de gênero (horror/fantástico) que não podemos nos negar em notar. É um erro continuarmos ignorando esse filme ou outras produções da Boca.

O crítico de cinema Inácio Araújo é preciso na sua colocação. “Me parece mais do que hora de, finalmente, se partir para compreender esse cinema de imensa diversidade, de altos muito altos e baixos deprimentes, mas que é preciso parar de ver como um desvio. Ele está aí, existe, precisa ser visto e revisto”.

Ninfas Diabólicas é um deles.

A propósito, a mostra Horror no Cinema Brasileiro deve se estender por todo o ano de 2012. Nesta quarta-feira, às 20h30, será exibido O Maníaco do Parque (2002/2009), de Alex Prado. Na quinta, no mesmo horário, é a vez de O Despertar da Besta (1969), de José Mojica Marins, filme que recentemente foi levado para Roterdã na retrospectiva The Mouth of Garbage, que jogou bem-vindas luzes em 19 filmes da Boca, mostrando a diversidade (de pretensões e de qualidade) do cinema que lá se fazia entre os anos 1960 e 80.

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