Morrem Paulo Cezar Saraceni e Adriano Stuart

Fiquei desconectado por dois dias e descubro que, além do jovem Festival de Paulínia, o cinema brasileiro perdeu duas figuras realmente de peso: o diretor e roteirista Paulo Cezar Saraceni e o diretor e ator Adriano Stuart.

Saraceni aos 79 anos, bastante doente (estava há oito meses internado por conta de um AVC), ainda teve um sopro de reconhecimento quando, em 2011, foi homenageado pela Mostra de Cinema de Tiradentes. Stuart, aos 68, faleceu vítima de parada cardíaca, andava um pouco sumido – o último filme que fez foi A Encarnação do Demônio (2008), de José Mojica Marins.

De Saraceni, fico com o impacto da beleza de seus primeiro filmes, o curta-metragem Arraial do Cabo (1959) e o longa Porto das Caixas (1962). Se me chamassem para falar de como o cinema pode ser poético, automaticamente mostraria cenas desses dois filmes, que são poéticos de um jeito que o cinema brasileiro conseguira ser até então só com Limite (1930).

O fluxo de poesia de ambos os filmes colou em mim de tal maneira na exibição em Tiradentes que me levou a escrever o seguinte:

Num filme correto, o fotógrafo auxilia o diretor a realizar os planos e criar uma ambiência de imagem. No caso de Porto das Caixas, não seria exagero afirmar que Mário Carneiro é cocriador ao lado de Saraceni. O trabalho belíssimo de iluminação, que joga os personagens num escuro da alma avassalador, emana uma falência humana paralela à pulsão pela vida.


Liberdade e prisão andam parelhas nesse filme. Chegar a um estado isento de coação pode implicar ultrapassar a linha da dignidade ou um criar uma prisão. É como se o Raskolnikov de Crime e Castigo, de Doistoiévski, fosse dividido entre a personagem da mulher e a do amante (Cláudio Cavalcanti).

Saraceni morreu sem conseguir lançar seu último filme, O Gerente, exibido na abertura da mostra mineira. Hábil em provocar amores ou ódios, o longa criou seu séquito de defensores ou detratores apenas com a projeção em Tiradentes e posteriormente foi destrinchado em dois textos críticos da revista Filme Culturaum positivo, outro negativo.

Ney Latorraca, o comedor de dedos das mulheres em O Gerente, adaptação de Drummond

No debate em Tiradentes, Julio Bressane disse, com a perspicácia que lhe é habitual, que já não havia mais espaço para o tipo de cinema que Saraceni fazia. Este demanda um movimento do espectador em direção ao filme, de que nós saiamos da nossa mediocridade comum para caminhar rumo ao filme. Sobre O Gerente, fez uma leitura inteiramente filosófica que que obviamente impressionou a todos.

É o mesmo cenário que aponta o crítico Inácio Araújo.

O que fazia vivo, ainda, era incomodar um pouco. Seus filmes não interessavam à Ancine, ao MinC, ao público chic. Esse público que, ao ver O Viajante, durante a abertura de uma mostra de melhores do ano promovida pelo Sesc, deixava a sala. Estava diante do, provavelmente, mais belo filme brasileiro desde os anos 90 do século 20, mas não sabia reconhecer.

Stuart, o hitmaker

Dos filmes de Adriano Stuart como diretor tenho uma memória muito vaga. Seus maiores sucessos foram os filmes dos Trapalhões (Stuart e J.B.Tanko foram os que mais filmes fizeram com Didi Mocó e companhia).

Vale lembrar que na lista das 20 maiores bilheterias do cinema brasileiro de todos os tempos (relação que é liderada pelos 11 milhões de especctadores de Tropa de Elite 2), Stuart dirigiu um quinto dela. Juntos Os Trapalhões na Guerra dos Planetas (1978), O Cinderelo Trapalhão (1979), O Rei e os Trapalhões (1980), Os Três Mosqueteiros Trapalhões (1980) e O Incrível Monstro Trapalhão (1981) somam 22.792.926 milhões de espectadores.

Além desses números assombrosos, o que permanece com mais força é a imagem de Stuart como ator, especialmente dos filmes de Ugo Giorgetti. Sua presença tanto em Boleiros – Era uma Vez o Futebol tanto Boleiros 2 – Vencedores e Vencidos é hilária. Há também Festa, é preciso não esquecer.

Em dois dias, sábado e domingo, o cinema brasileiro perdeu gente boa demais.

Em tempo: a foto principal que ilustra este post foi carinhosamente roubada do Facebook de Carlão Reichenbach.

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