Quando Drive encontra Sam Peckinpah

Quem se dedicou a analisar Drive com a devida atenção apontou as diversas influências ou citações no grande filme de Nicolas Winding Refn, que se tornou cult muito antes de estrear no circuito brasileiro – o espaço entre o prêmio de Direção em Cannes e o lançamento foi de quase um ano.

Refn assume como influência absoluta O Massacre da Serra Elétrica (1974). Eu ainda enxergo um pouco de Coppola (estrutura mafiosa), Scorsese (a trama se desenvolve em torno de um motorista), De Palma (estilização da violência) e Ferrara (intensidade das mortes). Faltou incluir nos textos que já fiz ou nas conversas que tive uma influência óbvia, mas para a qual despertei há pouco: Sam Peckinpah.

Em específico, um de seus filmes, Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, 1971). Mais do que um certo tratamento da violência – que está sempre na fronteira entre a crítica e o espetáculo –, existe um diálogo na natureza de como ela, a violência, participa da vida dos dois protagonistas.

Em Sob o Domínio do Medo (que me parece mais um filme sintomático dos Estados Unidos do começo dos anos 70), o pacato David Summer (Dustin Hoffman) tem sua hombridade desafiada durante todo o filme por uma família de bêbados que exerce um poder assustador sobre a vila em que moram. E como “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”, David explode e deixa cair sua máscara de bom cidadão sóbrio para entrar numa espiral de matança.

O Piloto de Drive evita se aproximar da violência como o Diabo da cruz. Mas quando ela se torna inevitável, ele (vivido por Ryan Gosling) mostra uma desenvoltura assustadora no manejo dela.

Pois aí é onde esses dois protagonistas mostram ser de idêntica natureza: a desenvoltura no lidar com a morte ou o matar. Me parece que ambos são personagens com um conhecimento agudo da morte, anterior ao nosso encontro com eles no filme. A sensação é a de que já viveram a violência por dentro, quase como característica ontológica de suas existências.

Em Drive isso é mais nítido já que o Piloto flerta com o crime e a interpretação de Gosling o mantém num tom meio “don’t fuck with me”. Em Sob o Domínio do Medo existe uma nuance: David nos é mostrado como um boboca, covarde e nerd. Porém, a habilidade, como já disse, no manejo da violência na parte final do filme (basta lembrar como foi arquitetado milimetricamente o grand finale) indica que aquela pode ter sido a primeira vez que o espectador a presenciou, mas não que ela existiu em David. Muito dele antes de começar o filme não conhecemos, penso eu.

Já que Peckinpah entrou na conversa, vou passar por um tópico que sempre é lembrado quando se fala sobre seus filmes: a glamourização da violência (acusação que pesa também sobre os cinemas de Tarantino e Kitano). Sinceramente, restringindo o comentário ao período de 1969-74, que inclui sete filmes, não enxergo uma ode à violência.

Primeiro porque os finais de seus filmes por vezes tem um tom pessimista. Segundo porque quem mata não é um caçador canastrão e sanguinário que se delicia com uma bala atravessando o corpo. Geralmente é um homem que o faz sob profunda tristeza e movido por uma obrigação maior (seja a lei ou a moral).

É o caso de Benny em sua jornada final em Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, do xerife atrás do bandido simpático em Pat Garret e Billy the Kid ou do perseguidor (vivido por Robert Ryan) em Meu Ódio Será Sua Vingança. Em vez de uma glamourização da violência, vejo mais um recado de Peckinpah para o espectador, algo como “olha, eu quero te mostrar como a morte é de fato e como ela é componente ontológico do ambiente desses personagens”.

Claro que, como diretor, Peckinpah não é inocente e sua composição lírica das cenas ou o uso ostensivo da câmera lenta deixam seus filmes no limiar. Uma interpretação crítica ou cool da violência em seu cinema depende muito da bagagem do espectador. Se tem-se na frente uma audiência cujo molde de herói é o que o cinema consolidou nos anos 80 (um tipo durão sempre ao lado da lei que mata com regozijo), há o risco de traçar-se uma linha direta entre esses filmes e Peckinpah (tanto que um usuário do YouTube fez o seguinte comentário sobre uma das cenas de Sob o Domínio do Medo: “Dustin Hoffman is a damn badass in this movie. Fighting off multiple cunts while also having to deal with and protect his cunt of a wife”).

Há, é verdade, brecha para uma leitura reacionária do que é mostrado nos filmes de Peckinpah, assim como há possibilidades de uma leitura crítica da própria violência. Existe uma lacuna para ambas as apropriações em seu cinema. Eu fico com a segunda.

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