O prazer de conversar sobre o filme (ou os tapinhas nas costas)

Acabou mais um Festival de Curtas. Alguns filmes realmente bons; outros bons, mas de plástico; outros equivocados, mas buscando um caminho; algumas bobagens e bombas. Festival possibilita também muitos encontros, conversas, trocas, leituras compartilhadas sobre filmes.

Mas para que haja o encontro de fato, não as performances corporais, é preciso ter muita paciência, porque nem sempre ele está ali, latente, disponível. É preciso aturar o caminho esburacado, as “conversas inteligentes”, os tapas nas costas, os “seu filme é do caralho” (quando o filme não é nada mais que OK) e afins. Conversas em festivais de cinema são como diamante: é preciso lapidá-las até chegar àquelas que realmente importam, que realmente acrescentam, que representam uma troca de mão dupla. Quando esses encontros genuínos acontecem surge algo mágico: o prazer de conversar sobre um filme.

Tive alguns encontros, dos quais destaco um: a discussão em torno de Quem Tem Medo de Cris Negão?, curta-metragem de René Guerra que acabou ficando entre os dez favoritos do público do Festival de Curtas. Foram duas conversas distintas: uma com dois amigos (eu gosto do filme, os outros têm restrições) e outra com um amigo que amou incondicionalmente o curta.

Na minha leitura, esse curta tem uma preocupação em não idealizar uma personagem cujos atos são extremamente contraditórios. Por isso, é muito bem vindo o reflexo estilhaçado das entrevistadas, que denotariam a consciência da impossibilidade em construir uma imagem inteira e íntegra, sem máculas. Cris Negão é amada e odiada. A representação que o filme escolhe me basta.

Já os outros dois amigos que gostaram menos do curta de René enxergam os mesmos mecanismos do espelho estilhaçado como uma distração desnecessária para a tensão iminente nas próprias entrevistas. Não se referem à tensão entrevistador-entrevistada, mas entrevistada-público, pois são travestis, todas lindamente montadas para a câmera. Os espectadores riem, mas do que, perguntam os amigos? É realmente da parte cômica ou há um riso nervoso? É essa tensão que esses amigos da prosa gostariam de ter desenvolvido mais na experiência de assistir ao filme, mas o dito cujo não deixou por conta do que eles chamaram de maneirismos.

No outro lado da corda, houve a conversa com um outro amigo que amou Quem Tem Medo de Cris Negão?. Para ele, o curta é uma homenagem não só à sua protagonista (assassinada em 2007 provavelmente por um desafeto colhido em anos de caftinagem), mas às próprias travestis. Tanto que o cenário que René é preto, jogando toda a atenção para elas, as personagens-protagonistas-entrevistadas. Além disso, na leitura deste outro amigo, o filme é, ao mesmo tempo, um documentário e um filme noir, pois refere-se à atmosfera do gênero para reconstruir a trama da morte de Cris.

Três leituras diferentes do mesmo filme. Três níveis distintos na escola do gostei-não gostei. Mas quatro pessoas com um interesse genuíno em compartilhar experiências com o mesmo filme, em vez de interpretarem o personagem d’Aquele que Dá o Tapinha nas Costas (bem comum entre os realizadores) e Aquele que é Agente do Convencimento (bem comum entre os críticos).

O problema é que se precisa tirar muita pedra do caminho para que esses encontros aconteçam.

Leia mais:
Crítica de Quem Tem Medo de Cris Negão?

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