O céu de Tabu

Qual minha surpresa ao parar no charmoso café que frequento após o horário de almoço desde que me mudei para o Tatuapé? Que eles, tal como a maioria dos estabelecimentos em São Paulo, decidiram colocar uma televisão. A justificativa: “É que os clientes estão pedindo”.

Mostro-lhes minha decepção. Digo que deixarei de frequentar o lugar. “Mas vamos colocar o volume baixinho”. Não se trata de som, mas da folga ao olho, de não ser condicionado a olhar uma imagem apenas porque ela está lá. “Se você não gostar pode reclamar com as meninas”. Está bem, farei. “Vamos testar se dará certo”. Certamente dará, sou exceção. “Na verdade, não. Outro cliente já reclamou”.

Penso num filme como Tabu, de Miguel Gomes, que deve estrear na outra sexta, 7, caso a monocultura do circuito permita. Há uma cena linda em que os apaixonados Ventura e Aurora curtem um momento idílico. Olham para o céu. As nuvens, repentinamente, ganham formas de animais.

Gomes, em tal sequência, mas também no restante do filme, fala justamente dessa perda da virgindade do olhar, de se encantar pela imagem cinematográfica, de acreditar na “mentira” que ela conta. Isso num contexto contemporâneo, em que entre nós e o mundo existe quase sempre uma tela.

Na porta do tal café o avô segura a criança no colo. Ele aponta para o céu e diz: “Olha lá, o avião”. Aponta para o chão. “Cadê o au-au?”.

Quiçá não esteja tão longe o dia em que um avô mostrará para o neto o céu, o avião, o cachorro apenas numa tela de celular. Em que só conseguiremos nos sensibilizar pelo mundo quando este vier mediado – tal como a paisagem francesa na limusine-camarim de Holy Motors.

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