Nem tudo é verdade

Cena do filme brasileiro Nem Tudo é Verdade

“Saudade” é a palavra última que aparece no plano final de Nem Tudo é Verdade. Apropriado falar de saudade após ver um filme de Sganzerla e também numa semana da morte de mais um que não deveria ter morrido – Alain Resnais.

O canal Arte 1 passou o filme de Sganzerla hoje de manhã, dentro da faixa Cine Clube Arte 1 Clássicos – quem apresentou a exibição foi Sérgio Rizzo. Lugar comum, mas inevitável o registro: a cada filme de Sganzerla que assisto saio com a sensação de ver sempre um filme jovem, cuja forma guarda sempre um frescor, um cheiro de descoberta.

Já era para ter falado de Sganzerla antes, quando o CineSesc passou a cópia restaurada de Copacabana Mon Amour, único de seus filmes do início de carreira que não conhecia. Este não é apenas uma obra-prima, mas guarda uma atualidade tanto formal quanto temática que assusta. Ao ouvir a Sonia Silk dizendo “tenho nojo de pobre” ou o esforço em esconder a miséria berrando frente a câmera, vejo o Brasil de 2014 maquiando o “feio” para exibir o “bonito”.

Mas voltando a Nem Tudo é Verdade, são muitos os filmes ali contidos. Um documentário sobre a passagem de Orson Welles no Brasil para filmar It’s all true; uma ficção sobre esse período, com Arrigo Barnabé na pele de Welles; um comentário sobre os “homens de cinema” com suas poderosas ligações telefônicas que decidem a sorte ou o infortúnio de um filme; outro comentário sobre uma ideia de Brasil, paraíso idílico? (“[no morro] não existe felicidade arranha-céu”), terra de belezas infinitas?; um filme sobre encontros improváveis (Herivelto Martins/Grande Othelo e Welles); um alinhavamento bastante livre sobre como a noção de mentira pode ser mais importante para o cinema do que a de verdade.

(Visto hoje, quando já sabemos o que se passaria entre o final da década de 1980 e começo da de 90 – a saber, desmantelamento dos mecanismos de fomento estatal da produção cinematográfica – alguns planos de Nem Tudo é Verdade tomam ainda um significado assombroso. Em especial, o trecho final – latas jogadas no rio ou queimadas e o trenó com a inscrição Rosebud sendo queimado –, que dá uma sensação de fim de ciclo de uma possibilidade de fazer cinema).

Bem possível que eu esteja deixando passar mais coisas, como sempre acontece com os filmes de Sganzerla. Por ora me chama atenção isso que citei. E uma saudade de saber que não será possível contar mais com novos filmes de Sganzerla.

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