Aviso aos navegantes

A essa altura você já deve saber do tal “Perigo: filme gay” em relação a Praia do Futuro. Se não, recapitulo: ao comprar o ingresso para o filme de Karim Aïnouz, um rapaz (em João Pessoa, me corrigiu a Suyene) foi avisado pela moça da bilheteria que “esse filme tem sexo gay” (ou algo assim). O rapaz postou o breve relato acompanhado de uma foto com o ingresso, no qual se lia em letras garrafais “AVISADO”.

Em um dia (repito: um dia!) criou-se uma avalanche de reações, especialmente no Facebook, de indignados com o preconceito (o que procede, pois ninguém avisa “olá, senhor, este é um filme com sexo hétero, tá?”). Fomos, em apenas um dia, do conhecimento ao fato a posts enfurecidos, notas em sites repercutindo o assunto, memes e até um tumblr (até gosto da ideia, é importante o riso para trollar a merda no mundo).

Com mais calma, surgiram matérias (lembro-me de uma da Flávia Guerra para O Estadão), relatando que o “AVISADO” que se via no ingresso não estava relacionado ao “Perigo: filme gay”, mas sim de que o cliente foi avisado de que teria de comprovar ser beneficiário legítimo da meia-entrada na hora de ingressar na sala (Ok, podemos sim colocar um ponto de interrogação se essa foi de fato a razão ou foi a resposta oficial da assessoria de imprensa em prol de um suposto mal menor à imagem do cinema).

Um minuto de reflexão, por favor. Não: compartilhamos primeiro, refletimos depois. Essa é a ordem das coisas nesse contexto de mídias sociais: o que importa é gritar, de preferência mais alto e mais rápido que o próximo.

O xis desse assunto é que há mais nuances do que a gritaria de Facebook permite – e é disso que sinto bastante falta: estarmos mais atentos às nuances. Evidente que vivemos numa sociedade para lá de homofóbica, racista e machista (bem, eu sou negro e gay, então tenho ao menos um par de causos para contar sobre opressão) e que é bastante comum reações do tipo “eu paguei trinta reais não foi pra ver viadagem no cinema”.

Mas, repito, olhemos as nuances. O aviso que a moça da bilheteria deu (“Perigo: filme gay”) é prática comum e não se restringe a um preconceito gênero. Vale também para filme mudo e filme em preto-e-branco, no qual os mercadores da exibição sentem a necessidade (bastante questionável) de dar o alerta. Como se fosse um salva-guarda (“eu te avisei, depois não vem reclamar”).

Bottom line, my friend, é que a raiz do alerta é essa: “Perigo: filme de mau gosto”. Porque nessa mentalidade-trator é mau gosto ver dois caras se pegando (ainda que Praia do Futuro não seja exatamente sobre isso), ver filme sem diálogo ou sem cor. Está tudo no mesmo saco: “Perigo: filme de mau gosto”.

Entra aí, porém, outra nuance: está tudo no mesmo saco, mas não. Ninguém leva lâmpadada na rua por gostar de filme mudo, preto-e-branco, do Tsai Ming-Liang etc. Evidente nesse balaio que a mente reacionária chama de mau gosto, existe um grupo (os gays) que já é metralhado pelo preconceito na sociedade (o que dizer dos que acusam o estado de coisas de Ditadura Gay?).

Não serei eu aqui a vir minimizar o preconceito, o ponto não ésse. O que importa: o Facebook está nos incentivando a gritar, e a gritar mais alto que o vizinho, que também já está gritando (ainda que eu compartilhe a causa do grito, ele me irrita). Pois na lógica da briga pelos gritos mais altos, não há lugar para nuance ou para uma discussão: sobra espaço apenas para a reação desenfreada, assunções automáticas (imagem do “AVISADO” no ticket = aviso de “Perigo: filme gay”) e pouca disposição em ouvir o outro.

Passam-se dois dias e, pimba, a pauta do dia já está esgotada e já não é mais tranding topics. Deixa de ter importância (corrijo-me: sua importância de compartilhabilidade, houvesse uma escala a medi-la no mundo das redes sociais, diminui). E isso é definitivamente um problema: que estejamos, talvez sem perceber, reagindo apenas pela necessidade em reagir à pauta do dia. No meio disso, um ambiente de dedos apontados uns aos outros.

Lembro de quando (re)começaram as discussões mais recentes a respeito da Cracolândia após um aceno menos reacionário do Haddad. Dentro da própria esquerda, não se tinha muito fôlego para respirar: havia de se defender a qualquer custo o gesto do prefeito porque, do outro lado da cerca, Alckimin estava fazendo de tudo para sabotar. Qualquer tentativa de debater o “progressismo de aluguel” do Haddad na questão, apontar os limites da política para a Cracolândia, o momento e os moldes que estava sendo feita era soterrada com um retumbante (implícito ou explícito) “você é de Direita” e/ou “está fazendo o jogo da Direita”. Não, porra, eu não sou de Direita, e não dá para começar uma discussão se o campo no qual estamos pisando é um dedo em riste na minha cara me acusando de ser de Direita, e se nós mesmos que nos colocamos à Esquerda não fizermos o debate crítica a nossa esquerda não avança.

Continuo achando odioso e reacionário “alertar” o público do “perigo” do filme a se assistir (se for assim, eu mesmo vou customizar meus avisos: “Alerta: este filme foi dirigido por Michael Bay. Esteja ciente e não reclame se tiver explosões demais”). Ainda mais quando toca num tema tão sensível (porque o conservadorismo está sempre pronto a reagir) como a questão do gênero.

Mas, por favor, gritemos menos e elaboremos mais. Senão, qualquer timbre que tente existir entre agudos estridentes será soterrado. E aí morrem as possibilidades de debate.

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