Irenice, mulher negra

Não encontro termo melhor para definir o que faz o documentário Procura-se Irenice a não ser “desapagamento”. Irenice Maria Rodrigues foi soterrada pelo regime militar que, como um carcará, pega, mata e come: pegou a mulher que via em sua cor negra orgulho, não vergonha; matou sua carreira; comeu o seu legado para que ele fosse invisibilizado até mesmo para os que não são desatentos aos ídolos negros de nossa história.

Há um tempo vejo o nome do Thiago B. Mendonça circulando em filmes relacionados a resgate de figuras/assuntos não-canônicos e resquícios da ditadura no nosso presente. Do que me lembro de ter visto, gosto de Piove, il film di Pio (a palavra seria menos “gosto” e mais “me emociono”) e A Guerra dos Gibis, codireção de Rafael Terpins (do bom documentário sobre basquete olímpico brasileiro, 3P); me incomodei bastante com a falta de cuidado formal de Dia da Mentira (codireção de Marco Escrivão, que também assina Procura-se Irenice) e senti falta de um olhar de fora, menos comprometido em legitimar um gesto político (o Cordão da Mentira) que é evidentemente legitimável por si só por qualquer pessoa em sã consciência; já O Canto da Lona me atraiu numa primeira sessão pelos personagens, mas caiu na revisão pelas “cenas bonitas”.

[Mas cito essas sensações de memória, porque faz bastante tempo que vi os filmes]

Voltando a Procura-se Irenice, um dos filmes contemplados no Projeto Memória do Esporte Olímpico e veiculado na ESPN dia 20. Toda sua força está no gesto de “desapagamento”, de tirar da lata do lixo as páginas rasgadas que continham o nome dela, de dizer: ela existe, ela tem história. Para além da relevância, três coisas que acho interessante: as entrelinhas da entrevista com Silvina Pereira, que dão uma noção real da dificuldade para um atleta em expressar posições políticas (se em 2015 Joanna Maranhão foi alvo de uma avalanche de groselhas, imagina uma mulher negra articulada e com voz ativa naquele ano de virada na repressão da Ditadura Militar, 1968?!). O segundo é a fala de uma outra entrevistada que nos lembra como qualquer tentativa de se apontar racismo na sociedade brasileira daquele momento poderia ser facilmente encaixada na etiqueta de “subversivo” e “comunista”.

O terceiro e mais importante: a inspiração que o filme carrega por Alma no Olho, de Zózimo Bulbul. Não posso afirmar que os diretores fizeram uma citação intencional ao filme, mas meu olhar não consegue ver os movimentos da bailarina Kanzelumuka mergulhada num fundo branco e lembrar do sorriso de Zózimo e seu corpo atlético mergulhado numa imensidão branca que cega e que castra. Acho que Zózimo ficaria feliz em ver que sua obra-prima (numa lista recente o coloquei como um dos 25 melhores filmes brasileiros da história) inspirou outros filmes – penso especificamente neste Procurando-se Irenice, mas especialmente em Kbela, de Yasmin Thayná.

Senti falta, porém, de uma entrevistada negra – acadêmica talvez – que pudesse complementar os depoimentos de “Irenice tinha temperamento forte” com o estereótipo da angry black woman (mulher negra raivosa), vala na qual foram jogadas muitas mulheres negras que adotaram um discurso e uma atitude ativa. E de, novamente, um cuidado um pouco maior na imagem (continua sendo problemático manipular a imagem digital em preto e branco – penso nos planos com a pesquisadora Cláudia Farias, com o treinador de Irenice).

Mas fico feliz com o “desapagamento” que Procura-se Irenice faz.

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1 comentário

  1. Salve Heitor. Meu nome é Thiago, dirigi com o Marco Escrivão o “Procura-se Irenice”. Li com interesse o seu artigo. Queria dizer só que a homenagem ao Zózimo é intencional. Fui amigo dele e na dedicatória (que se perde um pouco na exibição para TV) a gente diz: “Este filme é dedicado a Zózimo Bulbul, Irenice Rodrigues, Joel Rufino e a todos os artistas, atletas e pensadores negros que lutaram e lutam pela liberdade.”
    E Concordo contigo: Alma no olho é uma obra prima.

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