Texto de curadoria da Mostra ABD – Goiás do FICA 2016

Tive o prazer de ser convidado para fazer a curadoria da 14ª Mostra ABD – Cine Goiás, principal janela para os curtas goianos dentro do FICA – Festival Internacional de Cinema Ambiental. Publico abaixo o texto curatorial publicado no catálogo do festival, que aconteceu entre 16 e 21 de agosto na cidade de Goiás.

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Por Heitor Augusto, curador

Por um tempo considerável a produção de curtas-metragens goianos esteve associada a adjetivos como “modesto”, “local”, “restrito” entre outros que, não raro, eram utilizados para ilustrar um diagnóstico que apontava para uma menor capacidade de conseguir frequentar janelas amplas, que pressindisse de recortes geográficos. “Restrito” seria uma forma mais polida de dizer que esses filmes só poderiam ser acomodados no cômodo dos fundos.

O que a centena de curtas inscritos este ano na 14ª Mostra ABD Cine Goiás mostrou – ao menos aos meus olhos de curador baseado em São Paulo, mas que acompanha com interesse e proximidade o que é realizado em Goiás há pelo menos cinco, seis anos – é que já se torna possível vislumbrar a produção de curtas do estado conseguindo, de fato, pleitear frontalmente sua presença nas janelas nacionais mais privilegiadas do curta-metragem brasileiro – os festivais de cinema, sejam os exclusivos para o formato do curta ou os que abrem espaço para eles de forma paralela.

Comparando 2016 com 2012, quando fui jurado da Mostra Goiás e da Mostra Municípios durante a Goiânia Mostra Curtas, sinto-me confortável em afirmar que o nível médio melhorou sensivelmente e que alguns realizadores e realizadoras mostram potencial almejar uma “disputa” genuína de ocupação dos mesmos espaços que produções de outros estados “à margem” já ocupam desde que se aguçou um conjunto de eventos e características que hoje marcam a cena curta-metragista em diferentes lugares do país – a consolidação do digital como formato de captação, a formação dos coletivos de criação e produtoras independentes, a flexibilização de limites dos gêneros cinematográficos, editais de fomento com mínima continuidade. Foi uma surpresa positiva deparar-me com alguns filmes o longo do processo de escolha das obras que viriam a compor esta mostra.

Ao mesmo tempo que se deve, sim, celebrar a melhora na qualidade média dos filmes e destacar as obras que aspiram ao posto de um “filme de cinema” – entendendo o termo como uma maneira de apreender e se relacionar com o mundo e com o real num momento presente onde o que ocupa as diversas telas do nosso cotidiano não são apenas imagens, mas principalmente imagem em movimento –, levanto um contraponto sobre assemelhar-se com curtas feitos em outras partes do país. Diluir-se entre outras produções é um dado unicamente positivo? Não haveria um risco de se mimetizar fórmulas que garantiram a outros filmes passe livre pelos festivais de grande porte?

Faço esse senão tendo em mente algo que me parece mais detectável nos longas-metragens que alcançam as janelas mais nobres, especialmente fora do país: filmes que circulam porque dominam os códigos de sensibilidade priorizados pelos curadores de tais mostras. Estejamos atentos para que “fazer um filme de cinema” não seja fruto de uma motivação exclusivamente de se enquadrar a certas expectativas curatoriais (refiro-me menos ao presente da realidade da produção goiana e mais para onde ela pode ir num futuro próximo).

Estabelecidos os argumentos e os senões, o que esta curadoria buscou foi, a partir dos vectores da produção goiana dos últimos anos – cinema narrativo que prima pelos valores de produção, documentário cultural, documentário observacional, ficção com tempo narrativo rarefeito, filme híbrido, animações com diferentes técnicas, experimental que flerta com performance e textura das imagens –, agrupar um conjunto de curtas que possa contribuir na construção de um olhar tanto cinematográfico quanto político – e se possível, com ambos caminhando juntos, lado a lado. Busquei um equilíbrio entre as minhas preferências (ou idiossincrasias, dependendo de quem as observa) e a necessidade de colocar sob a luz filmes que me agradam menos, mas que ainda assim podem atingir outras sensibilidades.

Esta curadoria também esteve sensível a questões de representações e representatividade ao observar os filmes. Reconhecendo os desequilíbrios de gênero e raça que marcam a produção cinematográfica brasileira, além da consciência da circulação de filmes que tragam aspectos temáticos cuja discussão é urgente, exercitou-se um olhar que reconhecesse a legitimidade de alguns filmes – desde que tivessem condições de ocupar uma janela primorosa para a comunidade curta-metragista goiana como a da Mostra ABD Cine Goiás.

Fazem parte da seleção curtas de diferentes envergaduras, dramaturgias, gêneros, recortes e propostas, organizados pela curadoria em três programas (Da revolta; Verdades invisíveis; Da fabulação), de forma a dialogarem entre si, sempre que possível, dada as limitações de tempo de projeção. Desde um “não-filme” sobre os limites de apreender a emoção do real por meio do cinema a um exercício de cinefilia afetiva; do filme de montagem que ousa imaginar uma trama macabra ficcional em cima de imagens triviais documentais ao documentário que organiza um discurso crítico por meio justamente da montagem; da ficção tradicional e histórica ao híbrido autoencenado; do enredo estritamente urbano ao documentário do(s) interior(es);

Agora que essas obras estão sendo colocadas à prova por meio desta mostra, é imperioso que, para além da celebração, do enxergar o ter sido selecionado como um fim em si, os curtas sejam vistos, discutidos, examinados de forma crítica e frontal, sem receios ou “brodagem”. Só assim se fortalecerá, de fato, um olhar de cinema no(s) público(s) e nos realizadores de Goiás.

Filmes selecionados (em ordem alfabética)

Ai’uté – Doc – Dir.: João Henrique Pacheco
A Dama do Araguaia – Ani – Dir.: Geralda L. Rodrigues
Blaxploitation: A Rainha Negra – Fic – Dir.: Edem Ortegal
De Pássaros e Infância: Maria – Fic – Dir.: Mariana de Lima Siqueira
E o Galo Cantou – Fic – Dir.: Joelma Paes
Febre da Madeira – Doc – Dir.: Daniel Nolasco
Gaza – Exp – Dir.: Pedro Gomes
Jonatas – Fic – Dir.: Getúlio Ribeiro
Leblon Marista – Doc – Dir.: Fabrício Cordeiro e Luciano Evangelista
Muitos Me Seguem Mas Só Deus Me Acompanha – Doc – Dir.: Rei Souza
No Meio do Nada – Doc – Dir.: Simone Caetano
Reincidência – Fic. – Dir.: Matheus Leandro e Julio Mahr
Silêncio não se escuta – Exp. – Dir.: Rochane Torres
Tereza Bicuda – Doc – Dir: Laura Hasse
Tive Fome, Colhi Sede – Exp. – Dir.: Rafael Freire
Vida de Boneco – Ani – Dir.: Flavio Gomes
Wendigo – Fic – Dir.: Luciano Evangelista

Programas de exibição (por ordem de projeção)

Programa 1: Da revolta

Gaza | Muitos me seguem mas só deus me acompanha | A dama do Araguaia | Tive fome, colhi sede | Silêncio não se escuta | Reincidência; Jonatas

Programa 2: Verdades invisíveis

Ai’uté | Leblon Marista | No meio do nada | Tereza Bicuda | Febre da Madeira

Programa 3: Da fabulação?

E o galo cantou | Wendigo | Vida de Boneco | De pássaros e infância: Maria | Blaxploitation: A Rainha Negra

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