Tradução: Questlove sobre quando o negro perde seu ar cool

Questlove sobre Por Que o Hip-hop decepcionou a América Negra, Parte III: O que acontece quando “negro” perde seu ar cool (Questlove’s How Hip-Hop Failed Black America, Part III: What Happens When Black Loses its Cool?)*

por Questlove; Tradução: Heitor Augusto

Posso começar esse ensaio fazendo uma pergunta retórica? Você já ouviu falar de black cool**? Trata-se de algo que costumava ser inefável, mas contra o qual não se argumentava. Certas figuras culturais afro-americanas – na música, no cinema, nos esportes – superaram o que era uma sociedade manifestamente dividida e injusta, e no processo conseguiriam parecer singularmente intactos. Essas figuras se mantiveram inteiras por justamente se colocarem levemente à parte, mantendo um certo ar de inescrutabilidade, de não serem conhecidos. Elas eram cool.

À quem essa ideia foi aderente? Todo mundo é livre para fazer suas próprias listas, mas há alguns exemplos com os quais todos podemos concordar. Miles Davis era cool. Betty Davis também. Muhammad Ali era cool e Richard Pryor também, e Lena Horne, e Billie Holiday, e Jimi Hendrix, e Sly Stone, e Angela Davis, e Prince. Nos primórdios do hip-hop houve vários candidatos a cool, do Run-DMC ao Public Enemy. E o black cool, no fim das contas, é a quintessência de cool. O arcabouço desse conceito, em termos vernaculares, em termos históricos, é negro. Negro é o padrão supremo do cool, o ouro, e você não precisa olhar além do elemento mais cool do último século, o rock and roll, para verificar as maneiras nas quais a cultura branca claramente sacou que a jornada rumo ao cool envolveria pegar emprestado coisas da cultura negra. Mas o black cool está numa encruzilhada, a menos que seja o fim da linha. As dinâmicas que historicamente produziram o black cool nas entranhas da paisagem americana tem se deslocado, permitindo que algumas coisas sejam colocadas de escanteio e outras estejam a desabar de tantas rachaduras.

Podemos dizer que algo está faltando quando vemos pessoas tentando achá-lo. Alguns anos atrás a escritora Rebecca Walker coordenou uma antologia chamada, de forma muito fortuita, Black Cool: One Thousand Streams of Blackness. Inspirada por uma foto de Barack Obama saindo de uma limousine, ela convidou dezenas de escritores para uma reflexão sobre o fenômeno do black cool. Eles construíram uma série de argumentos para uma variedade de exemplos. Mat Johnson escreveu sobre nerds negros. Rachel M. Harper escreveu sobre como seu pai a ensinou com sua prática de que o sofrimento, quando liberado, pode produzir o cool. Conforme passeava pelo livro fui capturado pelo ensaio de Helena Andrews. Chamado “Reserve”, o texto de Andrews é sobre a máscara que as mulheres negras aprendem a vestir quando garotas. Ela imagina uma mulher negra se movendo pela cidade, negociando os olhares alheios no metrô.

Ela parece estar fazendo mais que todos ao fazer justamente muito menos. Nosso olho é atraído pelo dela. Ela reconhece a nossa presença ao nos ignorar. Ela é a personificação do cool por aniquilar a nossa própria existência.

O que me chamou atenção para a escrita de Andrews foram essas quatro sentenças que articularam, de uma maneira diferente (recorte de gênero e o espaço específico do metrô), algo que eu tenho pensado sobre black cool há muito tempo, que é: ele não existe num vácuo. Black cool é parte da sociedade em geral, parte da sociedade branca. Black cool é a extremidade por meio da qual a cultura afro-americana interage com a cultura branca mais ampla. Black cool só funciona do jeito que conhecemos porque é parte de uma relação. Olhe mais de perto para a cena descrita por Andrews. A mulher, ao chamar atenção, rejeita essa mesma atenção e, como resultado, atrai ainda mais atenção. O cool tem também uma outra dimensão, a de que você pode ganhar um tempo extra. Numa situação social de incerteza, quando a decisão errada pode ter consequências desastrosas, o cool permite que você fique um compasso atrás enquanto toma o caminho menos destruidor. Levado ao extremo, o cool pode ser uma sociopatia; levado às doses certas, torna-se uma mescla altamente inteligente entre os mecanismos de defesa e o de espelhamento.

A ideia de “chamar atenção” é central para a maior parte das interações entre humanos, óbvio: a pessoa menos interessada em qualquer relação detém vantagem. Mas pense além. Ao falar sobre o cool aqui não estamos apenas falando de um homem e uma mulher no metrô. Estamos falando sobre uma cultura negra e uma cultura branca, uma subcultura dentro da cultura hegemônica. Todas essas figuras do black cool que mencionei anteriormente (Miles, Hendrix etc) simultaneamente atraíram um olhar pasmado dos observadores culturais brancos e atravessaram esse mesmo olhar. Eles agiram de maneiras que não eram totalmente previsíveis para um público branco, não eram totalmente protegidas ou reguladas, e isso prolongou e aprofundou essa atração. Quando você olhava para uma foto de Miles Davis não se sabia o que ele estava pensando, e isso o fazia continuar olhando. O diálogo entre as culturas negras e brancas se mantinham vivas e vibrantes, repletas de tensão produtiva.

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Voltemos à palavra: cool. Cool não significa ausência de calor exatamente. Não significa pouca afeição ou indiferença. Significa uma fúria cool, intensidade mantida sob controle por um excesso de presença de espírito. Cool é um engajamento social que mascara um tipo de desengajamento. Como resultado, em qualquer demonstração do cool há um fiapo de ameaça. E se a máscara for levantada e a fúria for liberada? Aquela ameaça pode ser física, sexual ou intelectual, mas está sempre lá. Veja: aquela pessoa tem o poder que ele ou ela não está usando. Pense comigo: o que acontecerá se ele ou ela utilizá-lo? Reação: eu não tenho certeza, mas é melhor continuar assistindo para descobrir. (Distanciando-me por um segundo do conceito de black cool e indo para o cool de forma mais ampla, vale lembrar que nunca foi tão difícil manter-se reservado. Pense em John F. Kennedy. Durante sua vida havia um acordo de cavalheiros que protegia sua privacidade e o do gabinete da presidência. Aquilo permitiu o cool. Hoje em dia a privacidade desapareceu. Redes sociais, jornalismo instantâneo e a cultura do linchamento colocou de ponta-cabeça a dinâmica das relações público-privado. E isso afeto o cool em geral).

Mas o que acontece quando a cultura dominante para de procurar por pistas ou dicas na cultura negra? O que acontece quando a própria ideia de cultura negra como aquela que contém algo diferente e distinto se dissipa? Uma canção como “Royals”, de Lorde, critica uma faceta dos valores do hip-hop, Cristal e Maybachs e dentes dourados, e ao mesmo tempo que é redundante em alguns aspectos a canção também é instrutiva, pois mostra como os significantes da cultura hip-hop (que engoliu a cultura negra em geral) perderam muito do que tinham de cool. Eles se esvaziaram e não sabem como se repreencherem. A crítica de que as referências de Lorde são de quatro ou cinco ano atrás, no mínimo, não diminui o ponto-chave da cantora e até o torna mais afiado, porque mesmo que os nomes do produto tenham mudado, seu significado (e desimportância) continua o mesmo.

Roland Barthes tem escritos reconhecidos sobre brinquedos franceses. Isso parece um desvio, eu sei, mas estava conversando com um amigo escritor sobre um livro no qual trabalhamos juntos, e esse assunto veio à tona em relação à noção de cool. Barthes escreveu um ensaio sobre brinquedos franceses no qual ele celebrava jogos de construção porque despertava o impulso criativo e condenava outros brinquedos por fazerem o oposto:

Qualquer jogo de construção, se não for demasiado sofisticado, implica um aprendizado de um mundo bem diferente: com ele a criança não cria nunca objectos significativos; pouco lhes importa se eles têm um nome adulto: o que ele exerce não é uma utilização, é uma demiurgia: cria formas que andam, que rodam, cria uma vida e não uma propriedade; os objectos conduzem-se a si próprios, já não são uma matéria inerte e complicada na concha da mão. Mas trata-se de um caso raro: o brinquedo francês,de um modo geral, é um brinquedo de imitação, pretende formar crianças-utentes e não crianças criadoras. [1]

O que é um demiurgo? Soa amedrontador. É a metade de “urge”? Tenho metade de um neurônio para compreender. Mas a análise de Barthes sobre brinquedos toca em algo que é central para a cultura em geral e também para o cool. Você necessita pelo menos da possibilidade de criação para haver o cool – bem, criação ou destruição, que são metades da mesma laranja. E criação e destruição dependem de alguma noção de imprevisibilidade, uma potencial ameaça para as coisas como elas são. É importante lembrar aqui que é uma ameaça em potencial, o momento anterior à inovação: cool é mais sobre o espaço entre as notas do que as notas em si. Mas quando a melodia se torna monótona, quando as coisas continuam na mesma toada por muito tempo – de novo, voltamos a Lorde –, o cool enfraquece.

Hoje em dia a maioria dos artistas de hip-hop seguem uma cartilha porque eles estão tentando ser bem sucedidos num jogo cujas regras são claras. Para parafrasear Barthes: o hip-hop americano é geralmente baseado na imitação e tem o intuito de produzir artistas que são usuários dessa tradição existente, não criadores. E por causa disso, a cultura negra em geral – que tem no hip-hop seu valor padrão – não é mais percebida como uma vanguarda interessante, como fonte de um potencial de fratura ou uma provocação à dominante. Talvez até valha a pena olhar se nada mais estiver à frente, mas você não precisa fixar seu olhar. E isso nos leva para uma questão ainda mais preocupante, que desta vez não é retórica: uma vez que você não tenha mais o fator cool – quando o cool se separa da cultura afro-americana? –, o que acontece com a maneira em que os negros são vistos?

São eles vistos? Essa questão tampouco é retórica. A maioria da população segue as regras. A maioria das pessoas faz o que a sociedade diz o que elas devem fazer, de forma previsível até. Essas pessoas não precisam ser monitoradas porque não constituem de forma alguma uma ameaça. Existe um segundo grupo, menor, que se mostra ingovernável. A maioria dessas pessoas está jogada em depósitos, trancadas em prisões ou outros tipos de contêineres. Nenhum desses dois grupos precisa ser visto – realmente não, não no sentido de serem significantemente visíveis para a cultura de forma ampla. Mas e esses raros seres humanos que se mantém livres e ingovernáveis? E essas pessoas que atraem o olhar de vigilância da sociedade e o devolve na mesma intensidade? Essas pessoas são cool. Escolha seu ícone: Hendrix ou Ali ou Pryor. Pense como eles administraram serem administrados. E na América negra, tradicionalmente, o restante de nós precisa desse tipo de gente. Eles produzem um amplo e positivo efeito halo. Eles ensinam pelas atitudes de que ter uma certa individualidade e ser apoquentado podem persistir sem causar exclusão.

Por que nenhuma figura cultural contemporânea conseguiu substituir completamente e de maneira bem sucedida os ícones do passado no Panteão do cool? Desta vez, finalmente, chegamos a outra pergunta retórica. Hoje em dia, e cada vez mais, black cool é um esquema Ponzi que gira em torno de poucas pessoas, ingenuamente, para dizer o mínimo. Todos pagam tributo às estrelas top do hip-hop, mas o selo deles vem do fato de serem celebridades e suas previsíveis devoções a isso. Eles personificam o black cool num sentido tradicional? Acho que ele nem conseguem. Acho que nenhum de nós conseguimos. A paisagem cultural agora é baseada em vencer, não em aguardar mais um compasso para encontrar uma saída ao redor do problema. As estrelas de hoje do hip-hop podem ser o Banco Central do selo cultural negro, mas nos dias de hoje eles só estão imprimindo cédulas cujo valor há muito diminuiu. E isso não é cool.

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* [NT] originalmente publicado no site The Vulture como parte integrante de uma série de seis artigos onde o multi-instrumentista Questlove, da banda The Roots, investiga o fosso entre o hip-hop contemporâneo e as expectativas da América negra e, como diz o título, tenta compreender por quê o gênero desapontou justamente quem o erigiu.

** [NT] Ainda que “descolado”, “frescor” e “pose” sejam traduções possíveis para “cool”, entendo que não haja termo em português que satisfatoriamente dê conta do significado semântico, mas também sociológico, trazido pelo original. Por isso optei em traduzi-lo uma única vez, no título, apenas para informar aos totalmente desavisados de sua acepção.

[1] Barthes, Roland. Brinquedos. In: Mitologias. São Paulo: Diefel.1982. Pp. 40-2

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