Negro raivoso: Key and Peele, Obama e o Blaxploitation

Não há em tempos recentes uma obra cômica que tenha compreendido de forma tão complexa aspectos da vivência negra (em particular a norte-americana) que a de Jordan Peele e Keegan-Michael Key, que por cinco temporadas comandaram o programa de esquetes Key and Peele. Nele desfilaram uma série de personagens que cobrem uma variedade ampla de arquétipos de homens negros (e também de mulheres, esporadicamente).

Puxando de memória alguns esquetes/personagens: os esposos que se dizem machinhos e que tratam suas companheiras do jeito que querem, mas se encolhem na hora de performar o patriarcado (“I said: biiiiiiiitch”); o professor substituto que pronuncia os nomes dos alunos brancos como se fossem de pessoas negras (“DeNise” em vez de “Denise”, “A.A. Ron” em vez de “Aaron”); o casal gay Samuel (do tipo ativo-discreto-fora do meio) e LaShawn (a bicha pintosa); os zumbis que não querem atacar corpos pretos; os republicanos pretos “que não são iguais como monolitos”…

Mas nenhum deles consegue chegar perto do nível de articulação trazido por Luther, o “tradutor de raiva” de Obama. Pois é com esse personagem que Key (o tradutor) joga luzes na modulação de tom que uma pessoa negra tem de fazer para ser ouvida e respeitada. É por meio de Luther, o tradutor que traz à tona o que está suprimido, que a dupla de comediantes reelabora o estereótipo do Negro Raivoso.

A operação de taxação de “negro raivoso” é evidentemente perversa. Você é alvo de uma agressão (verbal ou simbólica); você reage energicamente – frustrado e inconformado que aquilo esteja acontecendo pela enésima vez em sua vida; aponta, com tal reação, que o gesto efetuado/a palavra dita não é normal e que representa, de fato, uma agressão; a partir daí seu direito de ser ouvido é retirado, pois, afinal, você reagiu “desproporcionalmente”. “Por que você tá tão nervoso, cara?”, te perguntam, “inocentemente”; dessa forma, você fica mais nervoso e mais inconformado com tamanha “inocência”. Pronto, está cavado o buraco para você ser taxado, se homem, de “negro raivoso” ou, se mulher, de “vaca preta louca e descontrolada”.

Obama, conforme presenciamos desde sua ascensão há dez anos, teve de fugir tão assiduamente da ameaça de ser taxado de “negro raivoso” assim como o Cascão do Maurício de Souza fugia do banho. Ou como Sidney Poitier, no auge do seu estrelato de ator na década de 60, teve, a todo tempo, falar direito, conjugar os erres e os esses, eliminar gírias, manter o cabelo aparado, envergar um terno impecavelmente alinhado.

E aí vem a genialidade do esquete de Key and Peele: nos lembrar o quão cruel é essa operação que a branquitude faz com os corpos negros, “convidados” a reagir com tranquilidade, informando e explicando onde estão as violências. Com o término do mandato de Barack Obama, os comediantes gravaram uma edição derradeira de Luther, Obama’s angry black translator. A ela:

Obama, sabemos, é um personagem que agencia sua presença num mundo majoritariamente branco – o mundo da política – por meio do cool. Ser cool – descolado – é tanto seu escudo quanto o passe que lhe permite trânsito. Como o passaporte que os habitantes de Ceilândia usam para entrar na Brasília em Branco Sai, Preto Fica. Obama é o presidente que domina os marcadores que o mundo dito civilizado valoriza, ao mesmo tempo que anuncia para esse mesmo mundo que ele é inequivocadamente negro. Qual outro presidente tem carteirinha para poder “drop the mic” após uma fala pública ou assumir publicamente que fica grudado na agenda do March Madness, momento de histeria do basquete universitário?

A presença de Barack na Casa Branca – que está inevitavelmente atrelada à mesma performance cool de Michelle – traz, como sabemos, uma predominantemente simbólica. Mas como mesmo avaliou Ta-nehisi Coates no artigo “My President Was Black” [clique aqui para ler o original em inglês]:

As vitórias de Obama em 2008 e 2012 foram diminuídas por alguns críticos como sendo meramente simbólicas para os afro-americanos. Mas não há nada que seja “meramente” quando o assunto são símbolos. O poder carregado pela palavra “crioulo” [nigger] também é simbólico. Queimar as cruzes não eleva, literalmente, a linha da pobreza entre os negros, assim como a bandeira dos Confederados não amplia diretamente o fosso de riqueza.

Assim como o inquebrantável ranking de 43 presidentes brancos e homens comunicava que o posto mais alto de poder governamental do país – e com certeza os postos políticos mais poderosos do mundo – era inacessível para indivíduos negros, a eleição de Obama comunicou que tal proibição tinha sido revogada. Comunicou, pois, mais que isso. Antes de Obama triunfar em 2008, as representações mais conhecidas de sucesso para os negros tendiam a ser artistas ou atletas. Mas Obama havia mostrado que era “possível ser inteligente e cool ao mesmo tempo, porra”, como colocou Jesse Williams na festa da BET.

E o que tem a ver o presidente Barack Obama com o cinema Blaxploitation, dois momentos históricos separados por 30 anos? Porque foram nesses filmes “menores”, de gênero, estrelados por negros e negras, recheados de personagens incorretos (detetives, investigadores, cafetões, traficantes) que os negros, ao menos enquanto personagens de cinema, puderam exercitar, sem pedir desculpas ou licença, o seu direito à raiva. Não o exercício ao convencimento via discurso liberal ilustrado ou experiência essencial. Não. Direito a ter raiva.

Quando vejo filmes como Superfly e Foxy Brown vejo um homem negro – Youngblood Priest – e uma mulher negra – Foxy – com raiva. Quando vejo o cafetão de The Mack enxergo um homem raivoso que não vai engolir a seco e ficar em silêncio. Ou quando vejo o forasteiro de Sweet Sweetback’s Baadasssss Song vejo outro indivíduo com ódio. Das várias razões para o fascínio exercido em mim por esse conjunto de filmes complexos – porque imperfeitos, insuficientes ou equivocados em outros aspectos – uma das mais marcantes é de me devolverem o direito legítimo a ter raiva sem ser castrado.

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Abertura de Sweet Sweetback: “Este filme é dedicado a todos os Irmãos e Irmãs que já estão de saco cheio do Sistema”.

(Direito esse que foi excomungado do panorama cinematográfico americano, tanto o mainstream quanto o independente, já em finais dos anos 70 e por todos os anos 80. Recomendo a análise que Manthia Diawara faz dos trabalhos de Eddie Murphy para o cinema neste texto aqui, que traduzi mês passado).

E das bandas daqui, do Brasil, pergunto: quantas vezes vimos no cinema brasileiro negros agenciando sua raiva e não sendo punidos e/ou castrados no final? Talvez em Madame Satã, de Karim Ainouz, com seu final em elipse (ainda que ali o foque seja mais no corpo gay do que no corpo negro, cabendo a nós reunir esse “eu” cindido); certamente com as mulheres de Kbela, no intelectual dividido de Compasso de Espera e na vingança de Odé em Rapsódia para o Homem Negro (um negro rebelde). E só. É só?

Esse pacto cordial… cada dia um 7 a 1.

faca-a-coisa-certa-love-hate

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