IndieLisboa: o perfume de “Amor amor”

Amor Amor tem um charme e exerce um fascínio, exala um cheiro do qual não necessariamente se lembrará daqui a cinco, dez anos – como se lembra do perfume de uma paixão de há muito –, mas enquanto esse aroma está por perto ele é agradável, aprazível, envolvente. Os canais porosos ficam abertos. Esse é o cheiro de Amor Amor.

Qual seria, então, esse charme do longa de Jorge Gramez? Alguns. Sem dúvida a mistura de um tom leve, às vezes frívolo, en passant, nos encontros (diálogo de abertura num dos topos da cidade, a ida à praia), atravessada por uma lembrança de que que vemos algo encenado (a distância de Xavier, o rapaz que toca violão), com algo de mais peso, da ordem da permanência da experiência (a poderosa sequência na escuridão do museu, com os quadros se transmutando em outros rostos, ou uma cena externa, em que os rostos se observam e são observados por uma câmera fotográfica – a mesma que foi recortada para o teaser do filme.

Em Amor amor uns amam demais, outros de menos; outros ainda amam quem não os ama; uns amam e são inconsequentes, outros são infantis, outros são adultos e serenos; uns estão doloridos, outros ainda doerão. Sim, soa evidentemente familiar para quem cresceu escutando os versos da Quadrilha, de Drummond. O que significa dizer que não há nada de novo, pois, no longa do português Jorge Cramez. Pelo contrário, talvez haja é de velho, fora de época, e uso isso aqui como um elogio: um certo desejo de fazer filmes de atores, que não fique intimidado de deixar o sangue correr pelas veias, que tenha no roteiro um esteio real e, neste, passos demarcados e identificáveis.

Outro dos charmes é uma gama de personagens que, recortados pelo amor, abrem uma possibilidade de identificações. Se topamos o jogo de que vivem numa espécie de mundo paralelo (obrigações do dia a dia passam ao largo do quinteto principal), é possível se jogar em um ou outro personagem, alternar as projeções durante o próprio filme. E isso é deveras gostoso.

Esse perfume que exala Amor amor passa, inevitavelmente, pelas atrizes e pelos atores, por suas presenças e performances. Cito o quinteto principal, alguns dos nomes já conhecidos pela cinefilia brasileira: Ana Moreira, Margarida Vila-Nova, Jaime de Freitas, Nuno Casanovas e Guilherme Moura. Suas atuações são parte fundamental para que sinta-se no longa uma fluidez que não engancha, que segue contínua desde que o botão “start” é acionado ao plano contemplativo final.

Volto ao tópico inicial deste texto: o cheiro do qual não provavelmente não se lembrará no futuro. Com uma década de de festivais de cinema nas costas são muitas as vezes que se depara com filmes que almejam o mundo, a permanência, o ser lembrado num futuro distante. Alguns logram esse lastro, outros não. E daqui, falando de um lugar de crítico, eu mesmo me iludi em ocasiões, pensei que estava frente a um filme que me acompanharia para a vida, mas que se esvaiu sem que eu sequer percebesse. Desintegrou-se silenciosamente.

De forma que Amor amor é apenas um filme que exerce um tremendo fascínio enquanto se assiste. E “só”. Essa é sua maior qualidade.

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