Dois ou três planos de Tentei

Encerrada a maratona do Festival de Brasília, do qual participei como um dos curadores de longas-metragens (e faço esse apontamento unicamente para explicar o porquê de não ter escrito uma linha sequer sobre nenhum dos filmes, e sei que alguns que me leem tinham expectativa de me ouvir falar sobre certas obras, em especial), começo esse gesto de (re)caminhar – pela segunda, terceira, quarta vez em alguns casos – em direção aos filmes. Começarei pelos curtas, os longas ficarão para um segundo momento.

E gostaria de começar com Tentei, o curta que venceu o festival, que tem direção, roteiro e montagem assinadas por Laís Melo.

Tentei tem dois planos, duas escolhas formais de encenação, que realmente me intrigam e me fazem pensar: por que esses planos estão ali, tal como estão? De que forma a arquitetura desses planos – pelo trabalho de câmera, pela iluminação e pela atuação da protagonista Patrícia Saravy – querem não só reforçar o espírito do curta, mas também dizer algo sobre o gesto mesmo de olhar? E são esses dois planos que me fazem querer escrever sobre o filme – e como é bom ver (outros) filmes que despertam a vontade de escrever.

Por que esses planos me intrigam? Porque eles me obrigam a pensar sobre comunicar o incomunicável. Não estou sozinho nessa reflexão, pelo contrário, essa bola está sendo cantada mais recentemente por Carol Almeida, numa perspectiva feminista, mas ela também está presente em muitos, muitos momentos da história do cinema – diria que “Da abjeção”, de Rivette, um dos poucos textos da crítica de filiação tipo Cahiers du Cinéma que ainda me interessam, carrega, em certa medida, essa preocupação. A “novidade”, se é que assim podemos chamá-la, é que essa reflexão está sendo feita por outros corpos, com outros olhares que questionam outras coisas dentro dessa questão “o que deve ou não deve ser mostrado?”.

Aos planos:

Plano A

O rosto de Glória é visto em primeiro plano. Ela está numa delegacia de polícia. Tem dificuldade para falar. O delegado (ou escrivão?, perdoem-me minha ignorância dos procedimentos) explica que ela tem de falar, relatar o que aconteceu. Pede detalhes, precisa de detalhes. Glória fala aqui e ali. Responde a questões difíceis de serem respondidas. O delegado/escrivão insiste. D-e-t-a-l-h-e-s. Sutilmente pontua que sexo entre casal é normal e esperado, faz parte do roteiro da família.

No desenrolar dessa cena, a câmera faz um deslocamento em “U”, abandona o rosto de Glória e prioriza o do delegado/escrivão, orquestrando, num fluxo contínuo e sem cortes, uma espécie de plano/contraplano entre Glória-Delegado/Escrivão. Caça-Caçador. Glória perdeu.

Plano B

Com o peso do mundo nas costas após ter falhado, Glória recolhe as provas da coragem momentânea – o bilhete para o marido é a mais visível – e as atira privada abaixo. Agora ela está parada num quarto semi-iluminado. A luz existe, mas é uma miragem distante, lá longe. Glória desaba e desconta a frustração nas roupas que pega do armário. Sacode as peças de roupa. Nesse transe, na hora da catarse, a atriz Patrícia Saravy, que vive Glória, atira a peça de roupa por sobre a câmera. Não vemos mais nada

*

Um plano é explícito – a ideia por trás da cena da delegacia é reforçada pelo deslocamento de câmera; outro é a recusa consciente, um ato de não-mostrar. Vixe! Tem alguma coisa aí de muito produtiva sobre o gesto de olhar que precisa ser observada. Quando, e o que, uma autora/um autor sente a necessidade de explicitar? Por quê? Quais coisas que, ao filmar, gritam tanto que é necessário um deslocamento de câmera para acentuar? Penso menos no impacto que isso cria – apesar de evidentemente ele estar em jogo, não consigo parar de pensar nesse plano de Tentei! – e mais no ato, novamente, de olhar: quais matérias nos atravessam tanto que é preciso explicitar?

Agora, mantendo essa mesma pergunta, penso sobre que matéria é essa que, para certos corpos, a melhor maneira de filmar é justamente não filmar? Aqui a discussão vai muito além do quadro-fora de quadro. Ao jogar a roupa por cima da câmera, cobrindo a câmera que rodava o filme que estávamos a assistir até então, sinto que Tentei vira para mim e diz: “Nesse campo simbólico o cinema não entra”. Então existem campos simbólicos onde o cinema não pode entrar? Onde não consegue entrar? Onde a melhor maneira de entrar é não entrar, pois o cinema já fez tantas investidas equivocadas que é melhor parar de fazer essas investidas?

O que vejo em Tentei, para além do “filme bem executado”, “filme forte”, “tema relevante”, “abre a discussão” e qualquer outro título genérico que possamos recorrer na falta de habilidade de sofisticarmos as nossas relações com filmes, é a presença de uma pergunta a ser estudada e encarada pelos próximos filmes que venham a ser feitos.

(Uma pergunta que, por exemplo, parece ter passado longe de Elle – mal aí gente por problematizar o Verhoeven, diretor que tantos de nós – eu incluso – amamos, mas né?)

Realmente gostaria de ver os filmes respondendo essa indagação e, antes disso, os autores se fazendo essa indagação. Penso, por exemplo: há como filmar um negro escravizado sendo punido com chibatadas? Doze Anos de Escravidão é uma perdição nesse aspecto, todos já sabemos. Certo, então… como encenar violências já tão filmadas, e filmadas com pouca ou nenhuma preocupação – pois, como também sabemos, certos corpos, certas demandas, valem menos que outras, segundo o olhar que diz “cinema” de um lado, “mundo” de outro.

Tentei não se resume a essa questão, mas esses dois planos não me permitem desviar dela.

Atualizando: falei que a Carol Almeida tinha cantado a bola. A bola está inteiramente costurada e redondinha no artigo que escreveu para a Revista Continente, em que ela relaciona Tentei com O Nó do Diabo. Clique aqui e leia.

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