Cinema Negro: Capítulos de uma História Fragmentada – Apresentação

Entre os dias 13 e de 17 de agosto acontecerá, dentro do Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte, a mostra especial Cinema Negro: Capítulos de uma História Fragmentada, da qual sou curador. A programação pode ser consultada neste link. Abaixo o texto de apresentação, inicialmente escrito para o catálogo do festival.

Miltons de Cinema Negro

por Heitor Augusto [1]

Um exercício: pergunte para uma pessoa negra até onde ela conseguiu avançar ao construir sua árvore genealógica. Complemente com uma segunda pergunta: “Você sabe a origem de seu sobrenome?”. A média das respostas, muito provavelmente, apontará um cenário de perpetuação de violências: aos negros da Diáspora tem sido negado o direito de saber seu passado, nem que seja o mais imediato – a família. Quem foram nossos tataravôs e tataravós, ou mesmo bisavós? Quais eram nossos nomes antes de sermos sequestrados e traficados para fora do continente africano? Como lidar com a linhagem de sangue sendo que paternidade e maternidade se misturavam com a ideia de posse e extermínio? [2]

E o que isso tem a ver com cinema e, mais especificamente, com a mostra Cinema Negro: Capítulos de uma História Fragmentada? Tudo. Um desejo central na reunião desses 25 curtas realizados entre 1973 e 2018 foi o de apontar possíveis mães, pais, primos, sobrinhos e tios-avós cinematográficos. De construir, como aponta o título, uma história a despeito das descontinuidades. Almejou-se, aqui, fazer um esboço de uma possível árvore genealógica, mas assumindo, evidentemente, que o número limitado de ramificações – a quantidade de filmes selecionados – implica a ausência de muitas outras obras. Esbarrou-se também na falta de preservação das cópias – problema geral do cinema brasileiro – e numa certa precariedade típica da condição histórica das pessoas negras desde a suposta entrada no mundo dos cidadãos – 1888, abolição oficial da escravidão que, no fim, não passou de um pacto conservador. [3]

Partiu-se de uma primeira semente: Alma no Olho (1973), de Zózimo Bulbul, que, mesmo não sendo o primeiro negro a dirigir um curta-metragem – Odilon Lopez e Afranio Vital chegaram antes –, foi o primeiro a se colocar como diretor negro e trazer sua negritude de forma indissociável à sua obra. Na árvore genealógica do Cinema Negro, Zózimo está na base, é a raiz, tal como Ousmane Sembène – com O Carroceiro (1963) e, especialmente, A Garota Negra (1966) – é o ponto de fundação do cinema africano. Que respeitemos, reconheçamos e admiremos essas raízes, mas que não as sacralizemos ou contribuamos para uma museificação; Freud já provou o quão saudável é matar o pai.

alma no olho-cabecalho

Cada um dos cinco programas está organizado em torno de um eixo – ora nítido, ora sutil –, de forma a promover intertextualidades entre as obras. São eles: Família, Genocídio, Raízes, Diáspora e Corpo.

“Família” é o programa mais narrativo dos cinco e abre com Aquém das Nuvens (2010), primeiro curta da roteirista e diretora paulistana Renata Martins. Às representações de dilaceramento da família negra, Renata contrapõe com um filme doce de um casal negro que ainda se ama e se adora, mesmo depois de tantos anos de convivência. O Som do Silêncio (2017), segundo curta do ator e diretor baiano David Aynan, tangencia o tema da masculinidade negra na paternidade. O esmerado trabalho de câmera e fotografia resulta em uma obra apurada e delicada. Saindo da paternidade e aportando no polo oposto, Deus (2016) é uma ficção híbrida que esteticamente habita o intervalo entre aridez social e ludicidade. Mesmo com as limitações espaciais da locação principal, a direção do paulistano estreante Vinícius Silva consegue potentes resultados de encenação. Com O Dia de Jerusa (2014), terceiro curta da baiana Viviane Ferreira, temos um belo e improvável encontro entre uma senhora solitária e uma recenseadora. Passado e presente se encontram dentro e fora da tela, com a tocante presença da lendária atriz Léa Garcia. O programa se encerra com Quintal (2015), do mineiro André Novaes Oliveira – um dos cinco cineastas desta mostra a ter dirigido também um longa. O filme implode categorias, marcações e expectativas, contribuindo indiretamente para a amplitude da discussão acerca do Cinema Negro.

o som do silencio david aynan
O som do silêncio, de David Aynan

“Genocídio” é, como indica o título, o programa mais duro e dolorido. Ainda assim, incontornável, dado que a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. [4] Jonas, Só Mais Um (2008), um dos trabalhos menos conhecidos do paulista Jeferson De, nos faz relembrar do assassinato do microempresário Jonas Eduardo Santos de Souza, morto dentro de uma agência do Banco Itaú pelo vigilante. Do documentário à encenação ficcional não-realista (mas verossímil), Dona Sônia Pediu uma Arma a Seu Vizinho Alcides (2014), do mineiro Gabriel Martins, nos aproxima de uma mãe – católica fervorosa – que reage à morte violenta do filho. Da vingança após a morte à proteção em vida, Chico (2016), dos cariocas Marcos e Eduardo Carvalho, parte de uma estética que parece dialogar com o favela movie para, por fim, transbordar em um lúdico que oferece esperanças. Justamente pelo nosso desejo de sobrevivência, os dois últimos filmes do programa apontam para um outro desfecho. Preto (2015), do paulistano Elton de Almeida, constrói um universo de imagens que, organizadas por uma montagem cuidadosa, nos convida a entender a busca de um rapaz negro por sua identidade familiar e racial. Encerra o programa Número e Série (2015), ficção da paulistana Jessica Queiroz em que a inventividade infantil dá o tom.

Chico irmaos carvalho
Chico, dos Irmãos Carvalho

“Raízes” é um programa em que são articuladas, por meio de abordagens bastante diversas, ideias acerca de passado e cultura negra brasileira, tendo o samba como uma expressão destacada. A abertura é feita por Aniceto em Dia de Alforria (1981), terceiro curta do carioca Zózimo Bulbul. O documentário se alimenta da força da oratória do compositor Aniceto do Império, que traz em sua música uma memória racial vívida. Também documentário, Para se Contar uma História (2013) tem a direção coletiva de Elen Linth, Lucicleide Santos, Diego Jesus e Leandro Rodrigues. O filme funciona como registro da resistência das mulheres negras na comunidade quilombola Santiago do Iguape – município de Cachoeira, Bahia –, ao mesmo tempo que traz para o universo do filme as tensões do “olhar de fora”. O samba volta a marcar presença com Gurufim na Mangueira (2000), de Danddara, cineasta que passou a se envolver com o audiovisual nos anos 1990, momento de entressafra, tal como Joel Zito Araújo e o antropólogo Celso Prudente. Oriunda do teatro musical, Danddara filma um enterro dando atenção ao místico e à permanência. E para encerrar o programa, Rainha (2016), sexto curta da carioca Sabrina Fidalgo. A opção pela fotografia em preto e branco tem mão dupla, ao mesmo tempo nos aproximando e nos distanciando de um aspecto específico das escolas de samba: a preparação de uma aspirante a rainha da bateria, tornando o filme ao mesmo tempo familiar e estranho.

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Gurufim na Mangueira, de Danddara

“Diáspora” apresenta curtas que aspiram um diálogo com o continente africano, seja com as reminiscências de um passado imemorial, seja por meio de atores do presente. Um Poema para Quenum (2008), segundo curta da coreógrafa, diretora de teatro e também cineasta Carmen Luz, faz uma conexão poética entre a produção de excessos no Brasil e a obra do escultor beninense Gérard Quenum. O desejo do elo também orienta Pontes sobre Abismos (2017), da artista visual Aline Motta, vívido trabalho estético que combina diferentes procedimentos de encenação, distribuindo as imagens captadas em três diferentes telas. La Santa Cena (2015), documentário filmado em Cuba por Everlane Moraes – baiana radicada em Sergipe –, observa com sobriedade a presença do sagrado no cotidiano de uma família negra através de um ritual alimentar. Do simbólico ao material, Merê (2017) recupera a atuação determinante de mulheres negras à frente de terreiros de candomblé Jeje Mahi. Dirigido pela baiana Urânia Munzanzu, o documentário conecta Salvador a Benim, confiando na ancestralidade como potência política. De volta às conexões simbólicas, Travessia (2017) é um filme sobre a imagem ausente. Primeiro curta de Safira Moreira – baiana radicada no Rio –, o documentário está na dialética entre diagnosticar – as fotografias de pessoas negras no século 19 e começo do 20 remetem majoritariamente a trabalho e subserviência – e estancar a ferida, provendo curas – as fotografias posadas feitas pelo próprio curta. E para encerrar o programa, Eu Tenho a Palavra (2010), quinto curta da veterana diretora Lilian Solá Santiago, que estabelece reminiscências linguísticas do umbundo no português rural falado numa cidade do interior de Minas Gerais.

pontes sobre abismos aline motta
Pontes sobre abismos, de Aline Motta

Por fim, “Corpo” reúne filmes em que o corpo negro apresenta-se como espaço de disputa e fabulação, de dor e de invenção. A potência estética de Alma no Olho (1973), primeiro trabalho de Zózimo como diretor de cinema, abre o programa. Parte-se de uma economia de recursos financeiros – Zózimo filmou com porções de película que sobraram das filmagens de Compasso de Espera – para se chegar a uma profusão de recursos expressivos. Em dez minutos, o diretor faz uma viagem por 400 anos da história do negro que foi arrastado para o Brasil e o que ele construiu aqui. A chegada traumática do negro africano escravizado orienta também Elekô (2015). O Coletivo Mulheres de Pedra utiliza o encontro de mulheres negras como instância de cura e ressignificação do espaço do porto no Rio de Janeiro: aquilo que era prisão, hoje pode ser liberdade. É também a liberdade do corpo e a intervenção poética no mundo que marca O Rito de Ismael Ivo (2003), terceiro curta do veterano diretor Ari Cândido, paranaense radicado em São Paulo. De um realizador experiente a outro em início de trajetória, BR3 (2018), segundo curta do carioca Bruno Ribeiro, frequenta os aspectos interseccionais da transexualidade e se mostra uma crônica fabulada do cotidiano. Fechando o arco narrativo do programa está Kbela (2015), da fluminense Yasmin Thayná, que parte do legado estético de Alma no Olho e o coloca em diálogo com a potência criativa da mulher negra na contemporaneidade.

BR3 bruno ribeiro
BR3, de Bruno Ribeiro

[1] Curador da mostra Cinema Negro: Capítulos de uma História Fragmentada. É crítico de cinema, pesquisador e professor. Tem textos publicados em revistas de crítica, catálogos de mostras e coletâneas. Ministra oficinas de crítica e cursos livres de história do cinema. Um dos curadores do Festival de Brasília (2017-18). Mantém o site Urso de Lata, onde exercita uma escrita que explora as intersecções entre raça, estética e política.

[2] Talvez não exista livro que ilustre de forma mais clara essas violências no Brasil que o romance Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves.

[3] Recomendo a leitura da entrevista do historiador Luiz Felipe Alencastro à BBC, disponível neste link, em que comenta como as elites se organizaram para manter um estado de coisas.

[4] Atlas da Violência 2017, realizado pelo Ipea e pelo FBSP. O estudo completo pode ser consultado em: http://www.ipea.gov.br/portal/images/170602_atlas_da_violencia_2017.pdf.

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