Black Brecht: o palco como tela

Por Heitor Augusto

Seria possível se aproximar de Black Brecht, peça-processo do coletivo Legítima Defesa que fica em cartaz no Sesc Pompéia até 5 de maio, e construir uma reflexão que se protegeria por detrás de um par de chavões que têm feito parte do vocabulário intelectual negro: devir negro e necropolítica – conceitos amplamente explorados pelo filósofo Achille Mbembe –, temporalidade cíclica, emergência de subalternidade (Stuart Hall e Gayatri Spivak), decolonial (Walter Mignolo), condição de colonizado (Frantz Fanon)…

Também seria possível se aproximar de Black Brecht tentando responder a uma pergunta colocada no subtítulo do trabalho: “E se Brecht fosse negro?”. Há ainda um terceiro viés de abordagem, bastante comum desde que a internet ressuscitou, com o clipe-canção This is America, um tipo de análise: a competição entre quem capturou mais referências, como se houvesse, na linha de chegada, um troféu de Sherlock Holmes da Internet.

Mas como eu não sou da teoria teatral e, assim, não fico confortável em procurar, minuciosamente, onde está Brecht em Black Brecht; também não sou afeito a recorrer a conceitos como quem levanta um escudo para se esquivar de uma relação mais implicada entre obra-crítico; e menos ainda interessado na corrida do destrinchamento de referências, não farei nada disso. O que farei é me colocar disponível e de frente à peça, como se ela fosse uma tela e eu, uma pessoa de cinema, olhasse pra ela, olhasse para mim e dissesse: “E aí, rapá?”.

Olho para Black Brecht e me sinto primeiramente interessado a falar na ideia de roubo e de sampler. Pois a encenação nada ortodoxa e atravessada por processos criativos e expressivos comuns a outras artes – PORRA, ELES TOCAM A BASE DE HOW MUCH A DOLLAR COST, DO KENDRICK LAMAR – me faz chegar perto de Black Brecht pensando no palco como uma encruzilhada onde o teatro vem para o chão de terra e, desnudo, se deixa tocar pelo cinema, pelas artes plásticas, pela música e pelo grafismo de estatísticas.

[Eu prometi não me esconder atrás dos conceitos do nosso vocabulário negro-intelectual, mas não resisti à tentação de dar um aceno ao conceito de encruzilhada de Leda Maria Martins]

A porosidade em Black Brecht leva à construção de um estado sensível que escapa da produção de sínteses e de meras relações causais. Um estar no mundo em que a condição precária-potente da pessoa preta brasileira serve como disparador estético. Como seria não apenas representar isso como ideia, mas construir uma experiência que a tivesse como o ar que se respira, a cadeira onde se senta, a frequência sonora que toca a pele, a matéria que dá tilt na cabeça?

Como investigar formas de encenar que reconhecem a dor e o terror, sim, mas que não encerra a obra como dispositivo exclusivamente de relato ou como mero índice onde se verifica uma suposta autenticidade da vida negra? O que seria uma estética dor-êxtase, morte-vida? Sinto essa busca em Black Brecht.

Eu vejo muito Terence Nance em Black Brecht.


[Aperta o sinto de segurança, porque lá vem o pastor te apresentar a palavra do mundo encantado de Terence Nance]

O norte-americano Terence Nance é criador e força catalisadora de Random Acts of Flyness, da HBO, traduzível tanto como Atos Aleatórios de Astúcia (sugestão de Thalma de Freitas) ou Só Viagem (proposta de Leon Reis). Na série, Nance parece especialmente interessado numa relação de horizontalidade entre as diferentes influências. Nance investe na fluidez e cada episódio torna-se um espaço para a vivência de um estado emocional-racional-corpóreo de um outro tipo de consciência. Como uma droga que te traz presença enquanto você flutua.

[Fim da palestra]


Mas fora a digressão que serviu como desculpa para apresentar o trabalho desse realizador, o que me faz trazer Random Acts of Flyness para a conversa é o desejo de abordar a ideia de mise en abyme. Numa definição bem simplória, significaria “uma história dentro da outra” ou “uma obra que traz em si outra obra”. Contudo, uma derivação do conceito que costuma me interessar muito é a sensação de abismo, de desabamento, de iminência de dissolução.

A mise em abyme em Black Brecht não é necessariamente de uma história que abre a janela para outra, mas sim como o palco escancara as portas para outras expressões artísticas, que abrem ainda mais as portas para outras expressões artísticas, que abrem mais e mais… Um processo infinito de abertura de abas. Como se houvesse vários As Meninas, do Velazquez, dentro de um único quadro.

Saímos do texto da narradora para um trecho do filme Alma no olho para uma peça musical executada por dois músicos para os atores ao redor da mesa à Santa Ceia para um interlúdio sonoro eletrônico para estatísticas apresentadas na tela última para canais estéreos visuais projetados nas árvores cenográficas para quadros da e intervenções na exposição Histórias Afro-Atlânticas… O palco onde se desenrola Black Brecht é feito um chão que se dissolve, que se torna mais nítido à medida que fica mais turvo.

Nessa experiência de desabamento, uma peça central é o curta-metragem dirigido por Ana Júlia Trávia, Entenda o processo colonial em cinco minutos!. Em mais uma aba aberta, a tela desce, ocupa o centro e se projetam as imagens desse meteorito que parece ter atravessado galáxias para aportar no palco. Senhoras e senhores, com esse filme é oficial a chegada ao audiovisual brasileiro da energia criativa que se esparrama por Random Acts of Flyness. No mesmo caminho, é necessário citar também as vídeointervenções de Bianca Turner, que contribui para esse estado de desabamento, de espelhamento e de abertura infinita de abas. Nota especial para o uso feito de Rebirth is Necessary, curta-metragem de Jenn Nkiru que, por si só, é resultado de um processo de sampler. Ana Júlia e Bianca fazem o sampler do sampler.

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Entenda o processo colonial em 5 minutos!, curta-metragem de Ana Júlia Travia

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Distanciamento-quente

São tantos os estímulos que, pode até não parecer, mas existe uma historinha com começo, meio e “fim” que nos permite um chão mais firme para pisar. Assistimos ao julgamento de Luculus, um “general civilizador” branco – um branco que é interpretado por um ator negro, gesto disruptivo muito sério, muito foda e muito divertido. O juiz fala em Kimbundo e suas palavras nos são comunicadas por um tradutor. O corpo de jurados é composto por cinco pessoas negras anônimas, mortas, vultos fantasmagóricos não-identificados nas fotografias dos séculos 18 e 19.

Black Brecht conjuga duas vias de relação com um espectador aparentemente contraditórias. De um lado, há uma instância mais distanciada e artificial – seja pelo próprio texto, pela figura da narradora ou pelo tom das interpretações, modulado para nos lembrar que, afinal, estamos no teatro e que a suspensão da descrença não é o que se busca aqui.

Do outro lado, a peça transmite um imenso calor, especialmente por meio da música, que praticamente me arranca da cadeira e me faz, mesmo que sentado, caminhar em direção àquele palco. Sabemos que o cinema de Fassbinder, bastante influenciado pelo teatro brechtiano, já aperfeiçoara uma espécie de melodrama distanciado, apresentando filmes que são, simultaneamente, quentes e frios.

Me arrisco a dizer que das várias coisas pretas em Black Brecht, o uso da música e como ela me convida a estar presente com o corpo e com a cabeça é um dos principais.

“Vamos nascer”

A produção de futuros tem sido uma tônica das artes feitas por pessoas negras num contexto contemporâneo no Brasil. Do rap à fotografia, do cinema às artes plásticas, são MUITOS os exemplos de obras que miram no que está lá longe, no que ainda não existe e que é passivo de ser inventado.

A peça do coletivo Legítima Defesa encerra-se com duas frases nada acidentais: “A crítica do presente só faz sentido se abrir caminho para uma política do futuro” e “vamos nascer!”. Abrir um espaço para uma explosão catártica no final, um recurso que, do ponto de vista do roteiro, costuma ser encarado como falta de sofisticação, simplificação rasteira do que é complexo, aqui permite um lugar indispensável de tirar do peito aquele montão de dor, de sons, de texto. Como preto, saímos “””bem”””. Podemos sair sem entender muita coisa, mas arrisco, sim, a dizer que saímos bem. O que não é pequeno quando o material manipulado é como mertiolate em joelho rasgado pela queda no chão.

Já que Black Brecht esbarra em Kendrick Lamar, me permito fazer uma analogia. A narrativa do álbum To pimp a butterfly termina com Mortal man e a onomatopeia que emula som de tiros, após escutarmos Tupac dizer, numa conversa imaginária com Kendrick, que ao homem negro é permitido não mais que cinco anos de assertividade. Oitenta tiros tá ali, é o bicho-papão da gente preta.

Mas não é assim que a peça dirigida por Eugênio Lima e com dramaturgia de Dione Carlos termina. Mesmo ausente de Black Brecht, sinto que o encerramento da obra esposa Alright: “Se Deus tá com nóis, então tudo vai ficar na paz. Vai ficar na paz, negão”.

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