Atlantique, uma história de amor entre fantasmas

por Heitor Augusto*Print

Na quina de uma construção abandonada, Souleymane (Ibrahima Traoré) tenta contar algo para Ada (Mama Sane), sua namorada que, contudo, está prestes a se casar com um jovem de uma família endinheirada. Ele busca as palavras, chama sua atenção. Ada precisa voltar, está com pressa. “Espere até hoje à noite”, ela diz. Ele cede, ela vai embora.

Corta para um gigantesco plano do oceano, desgraçadamente bonito e sonoramente imponente. É para o mar que Souleymane está prestes a ir, nos informa esse corte. Eles nunca se reencontrarão, nos informa a imensidão daquele mar, tão maior que mil corpos de amantes abraçados.

Assim, nas sutilezas formais e nos raccords que constroem pontes entre planos tão pujantes que Atlantique nos convida a uma experiência que deixa no peito uma marca de tristeza e melancolia, ainda que, contraditoriamente, seja um filme sobre esperança, renascimento, reencontro e encerramento de capítulos.

Para muitos realizadores a transição do curta para o longa-metragem representa profundos desafios – um deles é manter a mesma pujança formal apresentada em filmes de 20, 25 minutos em obras de duração mais extensa. Mati Diop, contudo, fez essa passagem de forma graciosa. Com Atlantique, a realizadora segue uma trajetória coerente com seu universo formal e temático, ao mesmo tempo que se propõe a dar saltos mais arriscados. É nada menos que espantosa a beleza formal de Atlantique.

As dores dos que ficam e a incerteza daqueles que se vão talvez seja o principal traço temático de Diop, presente não só no longa de estreia, mas também em dois de seus trabalhos mais conhecidos: o curta Atlantiques, de 2009, e o média Mil sóis (2013). Um outro forte traço autoral da diretora é seu apreço por um sentimento de melancolia, construído meticulosamente na atuação das atrizes e atores, na direção de arte, na iluminação e nos enquadramentos.

Tal como outro nome deveras importante do cinema francês contemporâneo – Alain Guiraudie –, Mati Diop faz belíssimos filmes melancólicos de amor. Especialmente Atlantique e Mil sóis compartilham, ao menos no meu peito, o mesmo sentimento provocado por Ce vieux rêve qui bouge (algo como Esse antigo sonho que se move), filme de Guiraudie de 2001, que é uma alegria triste de amar. É o que me informa aquele plano da boate com as pequenas luzes verdes.

Mas Atlantique não é unicamente um filme sobre o amor, ainda que essa seja sua faceta mais evidente. A fantasmagoria não se dá apenas no afeto, mas traz conotações políticas. O colonialismo e o neocolonialismo são também fantasmas que assombram todo o continente africano e, no caso do filme de Diop, empurram os filhos nativos para o mar, rumo a sonhos de uma vida melhor coletando as migalhas oferecidas pelo Norte.

Saindo das categorias generalizantes e investigando o específico, o longa de Mati Diop aponta as diferentes expectativas que recaem sobre as mulheres de um certo extrato social de Dakar e aborda as pequenas elites locais que, aliadas ao Estado, constroem fortunas reproduzindo táticas de superexploração do capital. O que estrutura essas relações, contudo, é justamente o rastro da empreitada colonial, materializado naquele hotel chique na costa de Dakar ou na partida de pessoas como Souleymane.

Na morte, a dor é de quem fica. Na partida de Souleymane, a perda é de Ada. Mas como estamos num filme fantasmagórico, nada mais justo que o final “feliz”.

*Filme visto durante o 2019 TIFF – Toronto International Film Festival.

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