O Che na era do consumo

Mesmo tocando especificamente na questão por meio de um entrevistado que aparece pouco antes dos créditos finais, “Personal Che” provoca a reflexão do que é a imagem na sociedade do consumo. Como a mercadoria pode ser “a gosto do freguês” – do inglês, “customized”, ou, do espanhol, “personal”.

O brasileiro Douglas Duarte e a colômbiana Adriana Mariño fogem do didatismo e abordam com originalidade a figura de Che. O documentário percorre Cuba, Líbano, Alemanha, Estados Unidos e China (esqueci algum) conversando com personagens que se apropriaram de maneira particular das idéias, pensamentos e atitudes de Ernesto Guevara, assassinado por agentes da CIA, em parceria com o governo boliviano, em outubro de 67.

Entre as dezenas de entrevistados, apenas dois expressam claramente quais eram as idéias políticas de Che, em direção a que caminhou sua luta e as contradições de quem o relê hoje.

Os entrevistados mostram contradições absurdas: camponesas bolivianas dizem que Che é milagroso, sendo que um vendedor de santinhos afirma que o São Che serve para tudo (de casamentos a pedidos impossíveis). Che, na condição de marxista, era ateu e considerava a religião um desvio no caminho à revolução.

A dupla de documentaristas encontrou também neonazistas alemães que comparam o argentino com Hitler (“ambos eram revolucionários”); conversam com um revendedor de carros nascido em El Salvador mas morando em Nova Jersey que coleciona camisetas de Che como um numismático; o diretor teatral libanês que omite as armas na encenação; e o parlamentarista chinês que exige democracia.

As respostas para quem foi Che são um verdadeiro “Deus nos acuda”. Muitos afirmam que ele lutava pela paz. Contraditório, pois, na condição de guerrilheiro, pegou em armas para construir outros regimes. Outro afirma que ele lutava pela justiça: mais do que isso, pois Che não usou justiça sem valor de sentido, sem propósito ideológico.

O pega mesmo é quando as respostas esbarram na mitologia e na sociedade do consumo. O mito acercou-se de muitos entrevistados (principalmente das senhoras religiosas que consideraram-no um santo).

Mas, uma das reflexões gritantes nas entrelinhas (expressada na fala de um entrevistado pouco antes da subida dos créditos finais) é o poder que o capitalismo tem em transformar símbolos em mercadoria e, neste processo, retirar-lhe o sentido. Um vendedor de camisetas americano diz não saber quem é Che, mas comercializa o produto porque vende muito

Quarenta anos depois, Che virou mito, lenda, fashion, sexy, defensor da paz, nacionalista, igualitário, camiseta, foto do Korba. Tudo, menos o que foi de fato durante a década de 50 e 60: um guerrilheiro revolucionário.

Em tempo: o documentário mostra, de relance, uma curiosidade. Para o público que quiser consumir Che, não reproduzir politicamente Che, tem uma “Carteira de Revolucionário”, vendida a US$ 5 na mesma loja norte-americana que vende as camisetas a rodo.

Em tempo II: uma busca no site da Livraria Cultura indica pelo menos 110 livros com a palavra “Guevara” no título.

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7 comentários

  1. poxa, desculpe joão pela demora em dizer algo sobre teu comment.vamos lá:1 – sobre a mancha e a independente… lamentável. o capital é bom nisso: vazio. é o pós-moderno…2 – o balaão vermelho… eu não vi, infelizmente!!! a maria do rosário caetano, um dos nomes mais interessantes da cobertura jornalística do cinema, na coluna almanaque da revista de cinema, fez um texto interessante sobre o filme.quando vir o balão vermelho juro que conversamos sobre.3 – barravento… tesão, cara! aliás, tesão foi o que eu senti quando ouvi aquilo. me fez lembrar de processo histórico, como as manifestações culturais conversam ao longo da história. e não podem ficar no registro de folclórico, morto no museu. tem de estar vivo!

  2. Desculpe utilizar este espaço para comentar algo diferente do post sobre o Personal Che, Heitor.Duas coisas:1) Você já assistiu à sessão dupla O balão vermelho/A crista branca? Gostei muito, e tenho certeza que você vai gostar. Gostaria de saber sua opinião.2) Seu blog é excelente. O post sobre o Barravento é ótimo. Viva Glauber!Um abraço cara

  3. A cena que você descreveu é realmente incrível. É sintomático perceber a apropriação de símbolos/imagens/mitos por parte de grupos ou pessoas, totalmente deslocadas de sua ideologia inicial. No futebol brasileiro temos exemplos: a torcida organizda Mancha Verde, do Palmeiras, utiliza bandeiras do Hamas, apenas pela associação “verde-violência”. Assim como a Tricolor Independente, do São Paulo F.C., que tem bandeiras e músicas do Taleban. Além de camisetas e bonés com o rosto do Che.

  4. a da santidade é genial!!!o douglas fala para a senhora, bem no fim do filme: “o che não gostava mçuito de religião. na verdade, ele dizia que religião não era bom”.aí ela olha estatelada e dispara: “é mesmo? ninguém nunca me disse isso”.e, apesar de ter uma penca de tipos, não tem o che versão mickey (infelizmente)

  5. Alguém mostra a camiseta do Che com orelhas de Mickey? Acho esse o melhor símbolo da mercantilização da imagem dele. E dou tudo pra ver a declaração sobre “santidade” dele..

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