Cinema argentino de qualidade

A cada vez que escuto aquela frase clichê “o cinema argentino é melhor que o brasileiro”, penso: então é isso que vocês querem que o nosso cinema se transforme, em exemplares como Relatos Selvagens? Porque, se for, pronto, estamos feitos, não nos resta nada a não ser a mediocridade travestida de inteligência.

Não espanta, porém, que esse filme esteja tanto fazendo a cabeça da classe média paulistana frequentadora dos poucos cinemas de rua que ainda restam na cidade. Um público que, grosso modo, nutre um fetiche pela assinatura dos autores (nos créditos, ao ver o nome El Deseo, um espectador ao meu lado disse para a namorada “essa é a produtora do Almodóvar, né?”), tem predileção pelo cinema narrativo de arte (sentimento exprimido na defesa de “um filme que conta uma boa história”) e está disposto a completar uma ou outra lacuna, se deixa seduzir pela presença de um ator respeitado (e Ricardo Darín é uma garantia de sucesso de bilheteria absurdo, aqui e lá na Argentina). Ou seja, o gosto médio: não se sujeita à estupidez de muitas comédias brasileiras, mas não se arrisca a viver uma experiência cinematográfica mais desafiadora.

Relatos Selvagens é, pois, o produto perfeito pra esse tipo de gosto. Um filme espertinho – contem pra mim, por favor, pra que serve aquela câmera pendurada na porta da cozinha quando os noivos brigam no último capítulo? Ou por que a câmera está no bageiro na sequência do avião? Ou a “piadinha” do estouro da champanhe para simular o estampido de um tiro – e que parece ter alguma relevância, já que em seus episódios passam temas como a disputa entre machos alfa, as aparências de felicidade num matrimônio, o dilema de cometer um crime etc.

É o produto-síntese do século 21: reforça uma certa ideia de bom gosto e é realizado de maneira correta, justamente para esconder sua insignificância. O que é ainda mais canalha: o inútil não consegue se assumir como tal e, para assegurar sua sobrevivência na circulação de capital cultural, veste-se de uma aura de relevância. Paremos por um segundo: passa a piscadela da gorda no carro após assassinar o agiota, o que sobra pra se pensar sobre o ato de matar? Ou no episódio do Bombita: o que resta senão uma catarse até um tanto reacionária que diz “o sistema é injusto e eu, um bom cidadão, só me ferro”?

relatos selvagens

O que Relatos Selvagens nos deixa para pensar sobre a selvageria do homem? Ou sobre a necessidade de vingança? É essa a trairagem do filme: ele finge oferecer algum legado para se pensar em civilização e barbárie, mas no dia seguinte, quando já passaram os efeitos da catarse, das piadas portenhas e os comentários com os colegas de sessão (“nossa, aquela cena do reboque é muito engraçada”), não resta nada dele. Minto: resta a constatação de que o produto do século 21 deve mascarar sua natureza mercantil e atribuir a si alguma relevância (política, cultural, econômica, estética, narrativa) que, num olhar mais detido, simplesmente desaparece.

Num momento em que há tanta coisa para se distrair e para não se prestar atenção no que importa, é preciso estar atento para esses embustes. Pois para a suposta excelência técnica de Relatos Selvagens e aquela propagandinha do “isso muda o mundo” é um passo.

PS: enquanto escrevia este post, mirava o mosaico de cartão de filmes que tenho na minha mesa. Um deles é de Vincere, do Bellocchio, que no topo dizia “fenômeno de público…”. Que diferença de fenômenos de público, hein?

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