Blaxploitation e o cinema negro – curso

A essas alturas você já deve saber que inicio hoje um curso que pretende relacionar Blaxploitation dentro de uma tradição de cinema negro americano. Ainda assim, registro aqui uma breve apresentação do que será dado em aula a partir de hoje à noite. Ah, segundo o site do CineSesc, tem vagas ainda. Apareçam.

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BLAXPLOITATION E O CINEMA NEGRO

Anos 1960. Novos ventos trazem ares mais liberais ao mundo. Grupos sociais, étnicos e de gênero alcançam um nível mais sólido de organização e expandem o alcance de suas demandas. Nos Estados Unidos, o movimento dos direitos civis dos negros populariza-se, as mulheres ganham voz e os gays constroem gradativamente uma identidade num período pré-Stonewall.

No cinema, a indústria entra em crise, em parte pela concorrência da televisão. A Era de Ouro dos Estúdios torna-se página de história e os magnatas de Hollywood tentam encontrar respostas para seduzir o novo público do cinema (na maioria jovens e com visão de mundo).

Nesse hiato mais liberal de Hollywood surgem novos cineastas com propostas autorais (Michael Cimino, Francis Coppola, Martin Scorsese, Brian De Palma, William Friedkin). Surge também o cinema Blaxploitation, dirigido e estrelado por artistas negros e voltado para o público negro jovem, sedento por imagens que fugissem dos esteriótipos construídos em clássicos como Nascimento de Uma Nação ou E O Vento Levou – mucama, bêbado preguiçoso, trabalhador braçal, vilão demoníaco.

Na virada da década de 70, heróis e heroínas marcados pelo atrevimento e coragem. Personagens que não pedem licença para existir. Cinema de gênero (ação, horror, máfia, policial) que responde ao seu tempo e inverte os papeis entre opressor e oprimido. Produção que divide opiniões até mesmo na comunidade negra. Tempos de “black is beautiful” e “I’m black and I’m proud”.

De vítima do assédio policial ao enfrentamento à ordem (Super Fly); de personagem secundário que morre nos primeiros quinze minutos de filme ao protagonismo (Blacula); do side kick cômico ao detetive à margem da lei (Shaft); da serviçal gorda e dócil ao furacão sexy e desafiador (Cleópatra Jones, Foxy Brown).

Filmes embalados por canções Soul, R&B e funk em trilhas produzidas por Curtis Mayfield, Isaac Hayes, Gene Page. Paródias e apropriações de blockbusters e clássicos (de Drácula a Blacula, de O Poderoso Chefão a O Rei do Gueto, de Emmanuelle a Black Emmanuelle). Do conflito étnico conciliador de Adivinhe quem Vem para Jantar ao questionamento do herói forasteiro em Sweet Sweetback’s Badaaaasss Song.

O curso Blaxploitation e o Cinema Negro, a ser ministrado pelo crítico de cinema, pesquisador e jornalista Heitor Augusto, vai contextualizar as transformações políticas pós-anos 50, apresentar a evolução da presença de atores negros no cinema norte-americano, investigar os pesos simbólicos na rebeldia dos personagens, traçar diálogos entre visão progressista e reforço do esteriótipo, relacionar a produção do Blaxploitation com outras correntes daquele momento e seguir os rastros que levam ao cinema contemporâneo como os filmes de Quentin Tarantino e Spike Lee.

Cronograma

AULA 1 – MUNDO EM TRANSFORMAÇÃO

Fim da Era dos Estúdios (TV + Lei Antitruste) e transição no cinema clássico
1954-1968: Cronologia do Civil Rights Movement, discurso “I Have a Dream”, de Martin Luther King
Crepúsculo dos mestres (Minnelli, Wilder, Cukor, Wyller)
Descolonização da África e cinemas novos pelo mundo
Geração Nova Hollywood: Cimino, Coppola, Scorsese, De Palma, Friedkin

AULA 2 – DA MUCAMA AO BOM CIDADÃO

Os Cinco Esteriótipos (serviçal dócil, a mucama gorda, o palhaço preguiçoso, o mulato dividido e o rebelde derrotado)
O Nascimento de uma Nação, “o filme mais controverso da história do cinema”
Race Pictures: produção pioneira de Oscar Micheaux (Dentro de Nossas Portas)
Hattie McDaniel, primeira negra a ganhar um Oscar: a Mammy de E O Vento Levou
Stepin’ Fetchit o esteriótipo do bêbado, preguiçoso e burro. Racista ou subversivo?
Willie Best ou Sleep n’ Eat
Harry Belafonte: charme e sedução do Rei do Calypso (Carmen Jones)
Sidney Poitier: conciliação na América (Adivinhe quem Vem Para Jantar)

AULA 3 – BLACK POWER E O CINEMA

O que é o Blaxploitation?
Música soul, James Brown e “Say it loud, I’m black and I’m proud”
Panteras Negras e radicalização dos movimentos políticos
Revisão do filme de máfia (O Poderoso Chefão, Super Fly e O Chefão de Nova York)
O gênero policial: a trilogia Shaft (Richard Roundtree e Samuel L. Jackson)
Inversão da ordem X reforço de esteriótipos (questão de gênero)
Cleópatra Jones, a detetive arrasa-quarteirão (“1,90m de pura dinamite”)
Pam Grier: de Blacula e Foxy Brown ao redescobrimento por Tarantino (Jackie Brown)

AULA 4 – CINEMA EXISTENCIALISTA

Terror: apropriação mítica (Blacula) e vampiro existencialista (Ganja and Hess)
Ficção científica: Splace is the Place ou a morte do futuro afro
Mandingo ou E O Vento Levou às avessas
O herói forasteiro na obra-prima Sweet Sweetback’s Baadasssss Song
O Matador de Ovelhas, um Blaxploitation neorrealista tardio?

AULA 5 – RASTROS NO CONTEMPORÂNEO

Anos 1980: o estrelato de Eddie Murphy
Anos 1990: a consolidação de Denzel Washington
Quentin Tarantino e a apropriação pop (Django Livre, Jackie Brown)
Spike Lee, diálogo crítico (Faça a Coisa Certa)
As comédias de Tyler Perry (Diário de uma Louca, Madea’s Family Reunion)
Seria possível reviver o Blaxploitation? (Original Gangstas, Blaxploitation: Rainha Negra)

Biografia do professor

Heitor Augusto é crítico de cinema, pesquisador e jornalista. Redator da Interlúdio, revista eletrônica de crítica de cinema. Tem textos publicados em diversos jornais, revistas e sites, além de escrever para catálogos de mostras de cinema. Realiza pesquisa permanente sobre o cinema Blaxploitation, sobre o qual prepara um livro a ser lançado em 2015.

Ministrou os cursos O Som ao Redor – Cinema Pernambucano, Multiplicidade do Cinema Africano, Panorama do Cinema Brasileiro Contemporâneo, Francofonia – Ecos no Cinema de Língua Francesa e Cinema Americano – Anos 70. Coordena o Crítica Curta, projeto de oficina de crítica de cinema do Festival Internacional de Curtas-metragens de SP. Desde 2013 é um dos curadores do MIMO 2013 – Festival de Cinema e Música.

Compôs também os júris oficiais da 12ª Goiânia Mostra Curtas e 2º Cine Mubi, além de ter participado de diversos júris da crítica. Sócio-fundador da Abraccine (Associação Brasileira de Crítica de Cinema) e coeditor do blog da associação entre 2011 e 2013. Mantém o blog de cinema Urso de Lata desde 2008 (www.ursodelata.com).

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